Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

“Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor”

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. As vozes de Tchernóbil – Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.

Eu sempre me interessei bastante em livros no formato de relatos. Todo mundo me indicava começar com os livros da Svetlana Aleksiévitch e, dentre todos os publicados, me interessei mais por “Vozes de Tchernóbil” (até mesmo por ter assistido a série da HBO que, por sinal, foi muito bem recebida pela crítica).

Caso queira comprar o livro, utilize o nosso link: https://amzn.to/3a5VzNY

A escrita do livro é incrível e eu me senti como se estivesse ao lado da escritora entrevistando os sobreviventes. Ela descreve a ordem dos fatos narrados e ainda as sensações/reações dos entrevistados com maestria. Dá para sentir a dor dos acontecimentos, mas também como as pessoas se sentiam com a conjuntura política da época.

Muitos dos entrevistados possuem um histórico de guerra e foram preparados para isso. Depois de anos de traumas da guerra e acreditando que a natureza (sempre aliada) nunca os faria mal, fez com que o crime de Tchernóbil não fosse tão facilmente compreendido por eles. Sequer os especialistas estavam preparados, pois eles tinham sido educados para outro tipo de situação, na medida em que ninguém sequer imaginaria um desastre nessas proporções.

Outro ponto interessante dos entrevistados é como eles ainda se identificam com a União Soviética. É muito simplista pensar que eles não “acompanharam a mudança” e ser esse o único motivo para tal identificação. Precisamos entender que essas pessoas foram educadas a acreditar, durante a vida toda, que eram comunistas soviéticos. Não é uma ideia fácil de ser desconstruída e achei esse ponto um dos mais interessantes do livro.

Gostei bastante também da abordagem que a escritora teve na questão ambiental, que fica evidente na entrevista de pessoas engajadas na causa e até mesmo a percepção de idosos que habitam por lá. A parte da morte dos animais domésticos me deixou muito triste, em especial, a morte dos cães. Sim, eu fiquei triste por ser o meu animal predileto, mas também por eles terem ficado em frente das casas esperando o retorno de seus donos.

Eu, Anna, acredito que devemos pensar e falar mais sobre Tchernóbil. Mas não da maneira que falamos nos últimos tempos, até mesmo limitando a existência das pessoas de “pessoa de Tchernóbil” e com vises inconscientes discriminatórios (como muitos relataram no livro). Vamos pensar no modelo de sociedade que queremos para o futuro: seria esse modelo compatível com geração de energia nuclear? Como diminuir o nosso impacto ambiental e corrigir excessos? Fica os questionamentos!

Por fim, só gostaria de lembrar que o livro faz descrições tristes sobre deformidades e mortes de pessoas guerreiras que enfrentaram o inimigo invisível, também conhecido como radioatividade. Então, caso queira ler, lembre deste ponto.

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

“Supérfluo, supérfluo… Encontrei uma palavra excelente. Quanto mais profundamente me perscruto, quanto mais atentamente examino a minha vida pregressa, mais me convenço da estrita exatidão desse termo. Supérfluo – é isso.

TURGUÊNIEV, Ivan. Diário de um homem supérfluo / tradução, posfácio e notas de Samuel Junqueira. São Paulo: Editora 34, 2019. p. 17

Essa obra é um clássico na história da literatura e teve um papel muito importante, em especial, na literatura russa. Caso queria comprar o livro, aqui está um link de compra: https://amzn.to/2Df411e

É a primeira vez em que temos contato com o psicológico do “homem supérfluo”, uma figura que já era presente na literatura russa, mas que ganhou uma maior complexidade na obra de Turguêniev.

O livro nos mostra um pouco o diário de Tchulkatúrin, um homem que está em seu leito de morte e que relembra o seu amor por Liza, filha de um proprietário de terras, bem como expressa a sua frustração com a vida. Há grande ênfase nesse amor por Liza, pois é o único acontecimento relevante que ocorre na vida de Tchulkatúrin, por mais frustante que essa experiência tenha sido (Liza o desprezava).

Essa frustração é uma característica marcante da figura do “homem supérfluo” da literatura russa. Mas, afinal, quem eram esses homens supérfluos? De acordo com Samuel Junqueira, eles são “jovens de origem nobre, dotados de grande capacidade intelectual e dos mais elevados princípios morais, mas também incapacitados para a ação, para a luta”.

É importante ressaltar que ocorreram grandes acontecimentos na primeira metade dos anos 1800 na Rússia, como omo a Revolta Dezembrista (1825) e a emancipação dos servos (1861). Os referidos eventos criaram um sentimento de união e busca por mudanças por parte da sociedade russa, em especial na juventude russa.

Todavia, por mais que os jovens estivessem com esse espírito revolucionário, eles não tinham como colocar seus ideais em ação, pois o regime do tzar Nicolau I tinha como característica a repressão e a censura. Logo, diante da impossibilidade de ação em um regime opressor e anacrônico, surge o Homem Supérlfuo.

Outro ponto interessante é que a obra de Turguêniev foi quase que inteiramente modificada pela censura em sua publicação. Apenas em 1856 que a obra é reestruturada com os trechos originais.

Na obra, Turguêniev cria tamanha profundidade para o personagem que acaba criando uma infância para ele. Logo, neste momento, surge a “criança supérflua” na literatura.

A leitura flui super bem e o narrador, apesar de sua situação trágica no leito de morte, se torna engraçado. Muitas vezes me pareceu bastante com “Memórias póstumas de Brás Cubas” do Machado de Assis. Eu recomendo bastante a leitura desse clássico e espero que esse apanhado histórico e análise literária de Samuel Junqueira enriqueça a leitura de todos!

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

“A luz das estrelas o socorreu. A pura beleza das dunas do deserto testemunhou a seu favor. Anjos de todas as denominações o apoiaram em silêncio”

NAKHJAVANI, Bahiyyih. O Alforje – Tradução de Rubens Figueiredo. 2ª Edição. Editora Dublinense. Porto Alegre, 2019.

“O Alforje” foi o meu primeiro contato com as obras de Nakhajavani e estou encantada. O enredo e a forma de escrita são incríveis e deixam a leitura fluida e interessante do começo ao fim. Caso queira comprar: https://amzn.to/3kynNFT

A escrita é doce e profunda. É um livro que trata sobre diferentes tipos de fé e personagens que se encontram e unem o destino por conta de um alforje (que eu considerei como mágico). Uma dificuldade que encontrei na leitura foi o choque cultural, pois não estava acostumada com os termos e a violência com que as mulheres são submetidas na obra.

Eu considerei como uma obra violenta, mas, ao mesmo tempo, envolvente e leve. A doçura e profundidade que Nakhajavani escreve é única e nos faz apaixonar.

A obra basicamente narra o assalto que há na caravana de uma noiva e o encontro com um corpo morto caído dos céus, todavia, na perspectiva de vários personagens que presenciam o evento. Então, há capítulos destinados à noiva, aos assaltantes, sacerdote, escrava, etc. Todos esses personagens se interligam não apenas por conta do acontecimento, mas também por conta de um misterioso alforje.

Cada personagem tem a sua própria bagagem cultural, um passado e uma religiosidade específica. Acho que esse ponto é o mais enriquecedor de toda a leitura. Achei também que o alforje era mágico e passava uma mensagem diferente para cada um que o pegava.

Mesmo tratando de um mesmo evento (e com pequenos flashbacks do passado de cada personagem) não achei repetitivo, mas super interessante. Indico fortemente para todos em busca de uma escrita linda (que “amacia a nossa mente” ) e uma cultura diferente.

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

“He was too simple to wonder when he had attained humility. But he knew he had attained it and he knew it was not disgraceful and it carried no loss of true pride”.

HEMINGWAY, Ernest. Old Man and The Sea.

Esse é um dos meus livros prediletos da vida. Eu nunca chorei tanto ao terminar de ler um livro. Não chorei por tristeza, mas de emoção por acabar de ler uma obra tão linda. Caso queira comprar o livro, aqui está o link para compra: O velho e o mar

Durante a leitura fiquei com raiva do Santiago, mas também torci por ele. Foi um livro cheio de emoção. Rumores de que Hemingway enviou, junto com uma cópia original de “O velho e o mar”, um bilhete pro seu editor dizendo “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda” e isso fez muito sentido para mim, pois sei que são poucos os livros nesse nível que lerei na minha vida.¹.

A obra nos conta um pouco da história de Santiago, um pescador cubano idoso, que se encontra em uma maré de azar e ficou 84 dias sem conseguir um pescar um peixe (“Velho“). Ele sonhava com leões, que era uma memória feliz da sua infância e não mais com mulheres, brigas e peixes grandes (“He no longer dreamed of storms, nor women, nor of great occurrences, nor of great fish, nor fights, nor contests of strength, nor of his wife. He only dreamed of places now and of lions on the beach. They played like young cats in the dusk and he loved them as he loved the boy”).

Todavia, após a insistência do jovem amigo Manolin, o Velho resolve tentar pescar novamente na manhã no 85º dia com sua pequena canoa. Após muita luta e resistência física e mental, o Velho consegue pescar um peixe enorme (cinco metros e 700kg). Lembrando que a amizade entre o Velho e Manolin é linda e eu amei o jeito que Manolin cuida do seu amigo (“Keep the blanket around you” the boy said. “You’ll not fish without eating while I’m alive”).

Maior parte da história no mostra a luta do Velho contra o peixe, que o fez ir cada vez mais para o alto mar. No alto mar, O Velho sofre com o sol cegante e abre feridas no corpo, em especial nas mãos que acabam parecendo “garras”. Durante esse período, o Velho faz reflexões sobre a vida e a relação do homem com a natureza.

É interessante como sentimos a limitação física do Velho durante a pescaria e ainda como ele considera os peixes como “irmãos” e que ele não gosta de desrespeitar a natureza, mas que é o dever dele para com a comunidade dar esse alimento.

Agora vou dar spoiler: uma das partes mais angustiantes do livro é quando o Velho sofre ataques de tubarão após conseguir pescar o peixe grande. Ele sofre ao olhar pro peixe mutilado e acaba voltando para a sua comunidade apenas com os espinhos de um peixe enorme. Manolin chora muito ao encontrar seu amigo cansado e machucado, em especial na mão. Todos os pescadores seguem respeitando o Velho, em especial após a pesca desse peixe de tamanho descomunal.

Muitas pessoas acreditam que esse percurso do Velho é uma metáfora. “No plano existencial, O velho e o mar seria uma metáfora de uma vida de riscos, de investimentos que, no final, resultam em solidão ao lado de uma carcaça sem valor. Para o tradutor e doutor em linguística pela USP Caetano Galindo, trata-se de um texto no qual “cabe de fato um mar, um sem fim de possibilidades e sentimentos em torno de uma história simples, direta”. O próprio Hemingway, no entanto, negava essas interpretações alegóricas. “O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira”, escreveu em uma carta ao crítico Bernard Berenson”².

Muitos identificam muitos traços da vida de Hemingway no livro, que morou em Cuba e fazia pescas na região. De todo modo, é uma história emocionante e genial. Mais que recomendo para todos!

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

“Cobri o conflito na Líbia em Sirte, no front contra o Estado Islâmico. Fiz coberturas da guerra na Síria, no Iraque e no Afeganistão. Nunca tive guarda-costas. Estava em São Paulo, e precisava de segurança”

CAMPOS MELLO, Patrícia. A máquina do ódio. Editora Schwarcz. São Paulo, 2020.

Para quem não conhece, a Patrícia Campos Mello é uma jornalista brasileira colunista da Folha de S. Paulo e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, em especial por seu trabalho como jornalista correspondente em áreas de conflito como Síria e Serra Leoa.

Patrícia explora alguns pontos muito interessantes em “A máquina do ódio” como o linchamento que sofreu pelo Presidente da República e seus familiares, o impacto das mídias sociais nas eleições presidenciais, as novas formas de censura aos jornalistas, a ascensão de populistas no mundo e como o Presidente se utiliza de técnicas do Viktor Orbán, líder da Hungria. O livro termina com uma reflexão muito boa para o jornalismo: “será que uma pandemia pode salvar o jornalismo?”

Caso queira comprar o livro: A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital

Primeiramente, é interessante pensarmos que, de acordo com dados levantados no livro, 60% dos brasileiros usam o WhatsApp e muitos se informam pelo aplicativo. Tendo isso em vista, a nova versão de totalitarismo, a fim de alienar a população e criar uma ilusão de apoio ao líder totalitário, enche as redes sociais com a versão dos fatos que se quer emplacar. Tal técnica é muito forte, pois é (muitas vezes) o primeiro contato que o cidadão terá com a notícia e essa primeira impressão é muito difícil de ser desfeita.

Achei interessante o termo “tecnopopulista” para os líderes populistas que se utilizam das redes sociais de maneira abusiva, isto é, por meio do astroturfing. É igualmente curioso o fato das pessoas confiarem mais nas teorias conspiratórias do que em especialistas.

A jornalista também conta detalhes do caso dos disparos em massa de desinformação (vulgo “fake news” e que é uma atitude proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral desde 2019). Ela informa que existem empresas que vendem o cadastro com milhões de números de celular atrelados a CPFs, títulos de eleitor e o perfil social e econômico das pessoas (a maioria deles eram idosos). Nesse ponto, é extremamente necessário pensarmos como devemos cuidar de um dos nossos bens mais preciosos: nossos dados.

Ao denunciar o esquema descrito acima, Patrícia sofreu diversos ataques por fanáticos do Presidente. Ela evidencia o machismo que existe, pois ninguém criticaria um jornalista homem da mesma maneira que ela foi criticada e julgada. Um homem a difamou em uma CPMI por ele ter levado um belo pé na bunda (mulheres, quem mais já viu uma cena parecida?).

Nesse ponto, ela trata do linchamento virtual, que faz com que muitos jornalistas se silenciem com medo das violentas represálias.

Outro assunto é como o governo brasileiro é um governo da “pós-verdade”, que valoriza versões em detrimento de fatos. Essa parte me lembrou muito do livro “O povo contra a democracia” do Yascha Mounk, pois o lider populista antiliberal precisa ser a fonte da verdade absoluta para o seu povo. O jornalismo e a mídia tradicional atrapalha esse objetivo ao questionar as ações do líder populista. Assim como Maduro, o Presidente brasileiro toma decisões contra os jornalistas e mantém uma postura violenta frente à eles.

Por fim, ressalto que o jornalismo, assim como a advocacia, é uma profissão de países democráticos. O direito à informação é basilar do Estado Democrático de Direito e precisamos defendê-lo com unhas e dentes. Precisamos criar um senso crítico das ações feitas pelos líderes populistas para não cairmos em uma cilada como esse novo formato de totalitarismo.

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Essa foi a escolha para o mês de julho/2020 do leitura no Clube de Leitura @LivrosdeLei e foi um sucesso! A história é emocionante e nos conta um pouco da vida de Kambili, uma menina nigeriana que vive em um mundo com fanatismo religioso, autoridade parental e o colonialismo. Caso queira comprar o livro: Hibisco roxo

Esse foi o meu primeiro contato com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie e eu fiquei bastante impressionada com o quanto a leitura de um tema tão pesado se torna leve. O livro é super fluido e é possível acabar a leitura em poucos dias.

A Kambili é uma garota adolescente que vive com o seu pai (Papa), mãe (Mama) e irmão (Jaja). A família de Kambili é bastante rica e seu pai é um famoso líder local e dono de um jornal. A garota sofre bastante com o autoritarismo e o fanatismo religioso de seu pai, que acaba agredindo fisicamente tanto ela quanto o seu irmão e a sua mãe.

A história muda quando Kambili e Jaja vão passar uns dias na casa da tia Ifeoma, irmã do Papa. Ifeoma mora em uma cidade universitária e em uma situação de pobreza diferente da vida de luxo que Kambili e Jaja vivem com seus pais. Logo, Kambili aprende outras formas de viver e convive com seus primos e o seu avô Papa-Nnukwu.

Durante esse período na casa da tia Ifeoma, Kambili mantém mais contato com o seu avô (que é visto como um “pagão” por seu pai) e com outros personagens, como o Padre Amadi – o padre de uma Igreja próxima a casa de Ifeoma. O Padre Amadi se preocupa com Kambili e a ajuda a “se soltar”, pois a menina tinha um comportamento estranho devido aos traumas que Papa introduziu em sua criação.

Eu espero ter feito você ficar com vontade de ler até aqui! Porque não quero me estender e acabar contando o fim da história, que é brilhante. O fim é totalmente inesperado e nos mostra uma nova faceta dos personagens. Ou melhor, “os humilhados sendo exaltados”. Indico esse livro para todo mundo!

Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

“Convenhamos, a fantasia não conhece leis, e além do mais efetivamente ocorrem no mundo muitos acontecimentos perfeitamente inexplicáveis”

GOGOL, Nikolai Vassiliévitch, 1809-1952. O nariz /e/ Diário de um louco; Tradução Roberto Gomes – Porto Alegre: LP&M, 2011.

O livro “O Nariz” de Nikolai Gogol é um clássico da literatura russa super curtinho e dá para ler facilmente em 1 dia.

Para mim, a melhor parte de todos os contos de Gogol é a mistura entre a vida comum e o absurdo, e essa história é minha predileta dele justamente por conta desse elemento. A obra nos conta a história do Major Kovaliov, um sujeito que acorda sem o seu nariz. Caso queira comprar o livro: O nariz: 201

A situação, em si, já é bastante bizarra. Mas piora bastante quando vemos a naturalidade que as outras pessoas tratam esse assunto. Ninguém entende como se fosse algo mágico, mas que “poderia acontecer”. O conto é dividido em duas partes.

Na primeira parte do conto, acompanhamos o barbeiro Ivan Iákovlevitch que encontra um nariz no meio do pão que comia pela manhã. O personagem fica com medo de ser preso pelas autoridades e resolve esconder o nariz. Nesse momento, pensei que ele era um assassino ou algo do tipo.

A segunda parte trata do momento em que o Major Kovaliov descobre que está sem o seu nariz. Desesperado, ele recorre ao comandante da polícia e até à seção de anúncios de um jornal. No fim, a polícia aparece em sua casa com o nariz, e o desafio passa a ser como colocá-lo de volta no rosto de Kovaliov.

Essa história é bastante divertida e ótima para conhecer as obras de Gogol. Indico para todos que estejam abertos para o diferente e que buscam uma leitura divertida.

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Esses dois contos são incríveis e são os meus prediletos de Nikolai Gógol. Espero que vocês gostem e eu li os dois contos em um livro só, no caso esse: O Capote

O Nikolai Gógol retrata super bem o período do czar Nicolau I e a sociedade de São Petersburgo. Outro ponto interessante e uma figura muito comum das suas obras é o burocrata, que trabalha como oficial em altos cargos e passam por situações “humilhantes” ou que faz com que ele fique ofendido com ela. Tais situações conversam com o absurdo e trazem eventos trágicos e cômicos para a vida dos personagens.

“O Capote” (1842) nos conta a história de Akáki Akákievitch, um burocrata de cargo baixo. Ele vive na miséria juntando dinheiro em toda oportunidade que existe, mas passa por um sufoco quando o seu capote rasga. O capote sai caro, mas fica perfeito e chama a atenção de todo mundo. Akáki Akákievitch, que antes não tinha amigos, começa a ser popular por conta de sua roupa nova e é convidado para uma festa pelo chefe do departamento. Mas não esperava ele que ocorreria nessa festa uma fatalidade que faria a sua vida mudar para sempre.

Um ponto interessante é que o personagem sequer conseguia terminar uma frase direito e isso é refletido no próprio nome do personagem, que possui elementos de gagueira. “Ao analisar o conto, Paulo Bezerra destaca a importância do nome de Akáki para a caracterização da essência do personagem. O tradutor explica que sua repetição sonora “se constitui num exercício de gagueira (…) que usa uma linguagem quase desprovida de articulação, como se o homem ainda não tivesse criado uma linguagem estruturada”. Acrescenta-se a isso o seu sobrenome Bachmátchkin, derivado de báchmak, que significa sapato, e temos a imagem de um ofendido feito para ser pisado”¹.

O próprio Dostoiévski reconhece que “todos nós saímos do capote de Gógol”, considerando que a obra ultrapassa gerações e moldou uma onda de escritores russos.

Já o conto “O Retrato” (1835) nos conta um pouco da vida (e sonhos) de um pintor iniciante chamado Tchartkov, que adquire um retrato que o leva à loucura. Tchartkov vive com diversas dívidas e pouco reconhecimento até que encontrou dinheiro em sua casa, coincidentemente perto do quadro de um homem oriental, cujos olhos pareciam olhar fixamente para Tchartkov.

O dinheiro aparecia o tempo inteiro perto do quadro e, logo menos, Tchartkov sai da pobreza e passa a ser um pintor rico e famoso na sociedade. Mas ele percebe que é tudo artificial e que ninguém liga para o seu talento, o que o leva à loucura e inveja de outros pintores melhores. Na segunda parte do livro, descobrimos que o quadro é a pintura de um agiota, que realmente existiu, e que tinha um ar sombrio e amaldiçoava a todos que usavam o seu dinheiro emprestado.

Um fato interessante é que Nikolai Gógol morreu como Tchartkov, “mergulhado em profundos arrependimentos e diagnosticado pelos médicos como insano. Como revela Vladimir Nabokov em seu livro Nicolai Gógol: uma biografia”².
Book Review: “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

Book Review: “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

“Quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico”.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 1977.

Quero começar a resenha com a própria descrição de Clarice sobre a obra: “a estória de uma moça, tão pobre que só comia cachorro quente. Mas a estória não é isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima”.

A obra é narrada pelo escritor Rodrigo S. M. que resolve escrever sobre uma mulher nordestina chamada Macabéa. Ele escreve a história de Macabéa ao mesmo tempo que nos conta, uma característica bastante peculiar de Clarice Lispector. Rodrigo despreza a protagonista de sua história e se utiliza da ironia em diversos momentos. Ele sabe de tudo e está em todos os momento da vida de Macabéa, bem como cria o destino da mulher, que muitas vezes acabamos duvidando da sua existência. Caso queira comprar o livro: A Hora da Estrela

Já Macabéa é uma mulher alagoana que vai morar no Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Todavia, ela encontra diversas dificuldades e um mundo que não foi feito para ela, fazendo com que ela não se conheça, mas apenas sobreviva na cidade.

Macabéa trabalhava como datilógrafa, mas escrevia mal. A sua única distração e fonte de informações é o seu rádio-relógio, que fala de curiosidades do mundo da história e da ciência.

A vida da personagem fica emocionante quando ela começa a namorar Olímpico de Jesus, um rapaz ambicioso e que não vê grandes perspectivas no namoro com Macabéa. Assim que Olímpico conhece Glória (única amiga de Macabéa), ele resolve ficar com ela, pois vê uma chance de ascensão social.

Em um certo ponto da narrativa, Macabéa começa a sentir dores e vai ao médico. Nessa consulta ao médico, ela descobre que está com tuberculose, mas não conta para ninguém. Glória percebe que a amiga está bastante triste e indica uma cartomante.

Macabéa vai até a cartomante (chamada de Madame Carlota) e é informada de que irá ser feliz ao conhecer um estrangeiro (um rapaz loiro chamado Hans) e se casar com ele. Mal esperava Macabéa que encontraria esse estrangeiro logo ao sair da cartomante, mas que não se casaria com ele: ela acaba sendo atropelada por uma Mercedes amarela (dirigida pelo estrangeiro) e morre.

O título “A hora da estrela” simboliza a morte de Macabéa, uma mulher que sente a vida apenas no momento de sua morte.

É um livro com uma narrativa brilhante e que levanta diversas questões filosóficas e sociais. Vale a leitura dessa obra-prima da literatura brasileira.

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

“Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra -, nessa assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente das lembranças do passado”.

TOLSTÓI, Leon. “A Morte de Ivan Ilitch”. Página 66.

Esse livro foi o meu primeiro contato com a obra de Tolstói e fiquei apaixonada. “A Morte de Ivan Ilitch” foi publicado em 1886 e é considerado como uma das obras-primas da literatura. Se tiver interesse em comprar a obra: A morte de Ivan Ilitch

O livro trata muito da questão de viver a vida de acordo com valores dignos e não de “aparências” como Ilitch viveu. O modo de vida de Ilitch é uma crítica à superficialidade e hipocrisia da alta sociedade. Essa parte me lembrou bastante a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. “A história de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis” (página 12).

Importante dizer que o livro foi escrito após a conversão religiosa de Tolstói, que recebeu uma carta escrita à lápis de Tugueniev. Tugueniev, que estava sem forças para empunhar uma pena em seu leito de morte, escreve “por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo”. Logo após o recebimento da carta de seu amigo, Tolstói escreve “A Morte de Ivan Ilitch”, uma pequena novela e que reflete sobre a finitude humana.

O livro começa com a narração do velório de Ivan Ilitch, um juiz do Tribunal de Justiça bastante ambicioso e que morrera de uma doença no apêndice ou rim. No começo da história, nos é apresentado Piotr Ivanovich, que foi um colega de Ivan Ilitch na faculdade de Direito e no Tribunal. Ivanovich é considerado como o amigo mais próximo de Ilitch, mas não sente vontade alguma de ir até o velório. Não obstante, além de não ter vontade de ir ao velório ainda fica chateado por ter perdido a chance de jogar cartas com os colegas.

Ninguém realmente ligava para a morte de Ilitch, pois todos os convidados no velório estavam mais preocupados com quem assumirá o seu cargo no Tribunal de Justiça do que com o próprio morto.

O fato de Ivan Ilitch ter sido um burocrata a vida inteira ilustra bem a ideia de uma vida “automatizada” e sem grandes propósitos, estando estagnado naquele ambiente: “Essa arte de separar tão bem a vida oficial da vida real Ivan Ilitch possuía no mais alto grau e a prática associada ao talento natural tinha-o feito desenvolver esse talento a tal ponto de perfeição que muitas vezes, como os virtuoses, ele até se permitia, por um breve momento, mesclar suas relações humanas com as oficiais” (Página 27).

Ao decorrer da leitura, conhecemos Ivan Ilitch e toda a sua trajetória de vida. Após um acidente que faz com que ele machuque na região do rim, Ivan Ilitch acredita ter contraído uma doença no rim ou apêndice. Conforme o tempo passa, o seu ferimento se torna pior. O seu único prazer se tornou a companhia do filho, de apenas 14 anos, e de um criado seu, por entender que estes jamais lhe mentiriam.

É possível sentir a angústia e toda a mágoa que Ivan Ilitch sente no seu leito de morte. A parte que mais me chamou a atenção foi como “dói” ver a vida dos outros seguindo em frente enquanto a dele estava em seu fim. “Essa falsidade em volta e até mesmo dentro dele, mais do que qualquer outra coisa, envenenou os últimos dias de Ivan Ilitch” (Página 53).

Esse livro é incrível e faz reflexões bastante profundas sobre a brevidade e sentido da vida humana.