Book Review: A Study in Scarlet de Sir Arthur Conan Doyle

Book Review: A Study in Scarlet de Sir Arthur Conan Doyle

Quem nunca ouviu falar do maior detetive de todos os tempos? Duvido muito que não venha a imagem clássica de Sherlock Holmes na sua cabeça quando falamos sobre detetives.

Essa leitura foi o meu primeiro contato com o universo de Sherlock Holmes. Eu, como a grande maioria das pessoas, já tinha uma breve noção de como era Holmes e seu amigo Watson por conta da cultura popular, já que nunca assisti os filmes e séries do universo do detetive (salvo Enola Holmes, mas é uma fanfic e não conta).

Eu fiquei super ansiosa com a leitura e toda hora busquei os traços que “já conhecia” de Holmes no personagem do livro. A leitura é super fluída e o escritor faz percebemos que somos péssimos detetives (nunca teria acertado a solução do crime rs).

Eu não sou a maior fã de romances policiais, mas estou tentando mudar isso! O começo para mim foi difícil e demorei bastante tempo lendo esse livro curto. Preciso ainda de mais obras para pegar o gosto!

A Study in Scarlet (ou “Um estudo em vermelho) é o primeiro livro do universo de Sherlock Holmes e nos conta um pouco sobre o nascimento da amizade do detetive com o Dr. Watson, bem como nos mostra um caso super complexo no qual a Scotland Yard pede a ajuda de Holmes para resolver.

O livro é dividido em duas partes. A primeira é sobre a morte misteriosa de um homem sem ferimentos e cercado de manchas de sangue. Já a segunda parte nos mostra um pouco sobre a vida dos Mórmons na zona rural dos Estados Unidos e os motivos que levaram o assassino a cometer o crime.

Os primeiros e últimos capítulos são barrados pelo Dr. Watson e o mais surpreendente é que Sherlock conseguiu desvendar o crime (isso não é spoiler, né? Porque ele nunca erra) em apenas 3 dias por meio da arte da dedução.

Eu indico essa obra para todo mundo e, principalmente, para os amantes de romances policiais!

Book Review: “Crime e castigo” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Crime e castigo” de Fiódor Dostoiévski

“Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski é um livro especial. Ele enxerga humanidade em situações que poucas pessoas conseguem enxergar, como no cárcere e na situação de extrema pobreza.

É um exercício de empatia e é uma obra de tamanha sensibilidade que mal consigo exprimir um pouco do que senti durante a leitura. Esse livro é um convite para todo o tipo de gente ler e até mesmo se conhecer como pessoa. Eu me considero muito empática, mas esse livro consegue surpreender a qualquer um.

Dostoiévski conseguiu captar em sua obra a vida miserável da população pobre de São Petersburgo e criar um clássico da literatura universal.

Esse clássico nos conta um pouco sobre Raskólnikov, um jovem estudante de Direito, que vive em situação de extrema miséria. Em um momento de desespero, ele comete um crime brutal e acaba por sofrer as consequências de seus atos.

Assim como em Macbeth, uma das maneiras que ele sofre as consequências é pela sua própria consciência. De uma forma extremamente humana, Dostoiévski faz a gente ver o negacionismo de Raskólnikov e até mesmo questionamentos válidos sobre a estrutura da sociedade.

Surgem os seguintes questionamentos: Qual a diferença na responsabilidade daqueles que matam outros em guerra comparando com um assassino comum? Qual o sentido em prender pessoas por 30 anos em uma cadeia? Como cobrar sanidade das pessoas que vivem no extremo?

O que me chamou atenção foi o rótulo de criminoso. Raskólnikov lida com esse conflito de “ser ou não ser”, pois não é algo que existe, mas sim uma imposição social por uma conduta desviante. E conseguimos sentir isso “na pele” do Raskólnikov.

Ele é uma pessoa complexa como todas nós. Acredito que, acima de tudo, Raskólnikov é extremamente bom. Ele salva crianças de incêndios e vê bondade em todos independente de preconceitos. Isso que torna o exercício de empatia e sensibilidade ainda mais profundo e especial.

Que livro incrível! Tenho muito mais para falar sobre ele… mas vou me segurar aqui e ainda publicarei um vídeo explorando mais o crime e o castigo da obra. Muito obrigada por ler até aqui e espero que você tenha tido vontade de conhecer essa obra-prima da literatura universal.

Book Review: “Anna Karênina” de Leon Tolstói

Book Review: “Anna Karênina” de Leon Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras; Cada família infeliz está infeliz à sua maneira”

TOLSTÓI, Leon. Anna Karênina – Tradução de Oleg Almeida. São Paulo: Martin Claret, 2019.

Caso queira comprar o livro: Anna Kariênina

A obra “Anna Karênina” foi uma experiência única para mim por vários motivos, em especial, por ter lido em um grupo maravilhoso de Leitura Coletiva e também por ser essa obra tão genial de Tolstói.

Essa obra vai muito além do livro em si. Ela te mostra um pouco sobre os mais simples sentimentos humanos: amor, traição, crises existenciais, amadurecimento, saúde mental entre outros. Tolstói cria uma bela imersão para o leitor de todas as épocas: a gente consegue se sentir na Rússia Imperial e como parte da própria obra. Os personagens são descritos pela perspectiva dos outros, na medida em que ser algo é muito além da descrição de um narrador – então basta que a gente conheça alguém como já conhecemos na nossa vida cotidiana.

Todos os personagens são extremamente complexos. Não existe um personagem sequer que seja raso nesse livro. É uma própria obra de arte e que dá prazer em ler.

A obra nos conta um pouco sobre Anna Karênina, uma mulher aristocrata, que encontra o amor dos sonhos com um rapaz conhecido como Vrônski. Mas, como nem tudo são flores, Anna é casada e começa a ser ostratizada da sociedade ao se relacionar com o amante.

Ao meu ver, Anna é uma grande denúncia de Tolstói sobre a condição da mulher na sociedade. Toda a solidão e complexidade que a Anna se encontra acaba com a saúde mental e faz a gente entender um pouco das dificuldades da mulher russa na época.

De outro lado, temos Lióvin. Ele é um personagem que tem muitas características do escritor e vive em uma crise existencial. Ele se questiona da sua posição de privilégio e a situação dos mujiques (camponeses pobres), bem como outros pontos profundos como a existência de Deus e o que é fé.

A história de Anna e Lióvin se interconecta em algumas partes da obra. A conexão é maior por conta do amor que Lióvin sente por Kitty (irmã da cunhada de Anna). Mas não vou me prolongar por aqui, porque temo dar algum spoiler para você.

Esse livro é o meu novo predileto da vida e espero que possa ser um grande querido seu também! Fica a indicação dessa obra que me enche o coração (só de escrever até aqui).

Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

“Apesar de a ciência gostar muito de leis genéricas, constantes, as pessoas, assim como se constata, gostam de ser diferentes umas das outras”

GOSHEN-GUNDAR, Ayelet. Despertar os Leões – Tradução de Paulo Geiger. Editora Todavia, 1ª ed., 2020. Loc 76

“Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen foi definitivamente um dos melhores livros que li nesse ano. A obra permitiu com que eu conhecesse um pouco da cultura israelense, dificuldades em ser refugiado e também sobre fluxos de consciência (na medida em que a própria escritora é psicóloga).

A experiência da Ayelet com a psicologia foi essencial para toda a obra. O livro nos faz entrar no psicológico de três personagens: Eitan, Liat e Sirkit. O protagonista é o Eitan, um homem branco, rico e neurocirurgião, que é casado com uma investigadora chamada Liat.

A vida dos dois é super comum e privilegiada: moram em um bairro bom, casa própria, carros e dois filhos. Mal sabia Eitan que a sua vida mudaria após um fatal crime: ele acaba atropelando um refugiado da Eritreia 🇪🇷 (um minúsculo país no continente africano) e entra em uma dívida com Sirkit (esposa da vítima).

A Sirkit é super criminosa e “prende” Eitan em sua dívida por meio de dois sentimentos humanos: culpa e desejo. Mas não muito da maneira que vocês podem estar pensando… esse livro vai te surpreender!

O livro permite com que a gente se aprofunde na consciência de todos os personagens e entramos nas neuras deles (e eles criam novas na gente também haha). Eitan é um homem bastante escroto e foi super interessante entrar na mente dele, em especial. Nesse mesmo cenário, vemos as dificuldades de Sirkit e as inseguranças de Liat.

É um livro que me deixou ansiosa e tive vontade de engolir o mais rápido possível para saber o desfecho. Ele terminou com o resultado que eu queria (aleluia, irmãos), mas não da maneira que eu pensei.

Indico fortemente essa leitura para todo mundo interessado em livro que te prende do começo ao fim e que instiga a ter questionamentos novos.

Book Review: “O eterno marido” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “O eterno marido” de Fiódor Dostoiévski

“O eterno marido” foi escrito por Dostoiévski em um período de já maturidade do autor (1870). Escolhi essa obra para ser lida depois de “O jogador” e antes de “Crime e castigo”. Essa ordem foi totalmente aleatória, mas que prejudicou muito a minha leitura, como vocês verão a seguir.

Eu terminei “O jogador”, que é uma obra curta e brilhante do escritor, que tem seu próprio tom de ironia e é extremamente divertida. “O eterno marido” também é visto por muitos como uma obra curta e divertida, então, para mim, foi inevitável fazer comparações.

O enredo é muito bom e surpreendente. A obra nos conta sobre o encontro de Pável Pávlovitch (o eterno marido) e Vieltchâninov, ex-amante de falecida esposa de Pávlovitch. Conforme a leitura, você acaba “entrando” um pouco no personagem de Vieltchâninov, pois a perspectiva da realidade da obra gira toda em torno da dele – isso fez com que eu sentisse um nojo extremo do Pávlovitch, assim como Vieltchâninov sentia.

Acho que Pávlovitch foi um dos personagens mais babacas que li nesse ano todo, mas não irei revelar os motivos por conta de spoilers. Outro ponto interessante foi a definição de “eterno marido”, que é um termo usado por Vieltchâninov:

“Em sua opinião, a essência de tais maridos consiste em serem na vida, digamos assim, “eternos maridos”, ou melhor, apenas maridos e mais nada”.

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. o eterno marido – tradução de rubens figueiredo. Companhia das letras. São Paulo, 2018. Loc. 724 no kindle oasis.

É um livro que vale a leitura. Não senti que foi uma leitura prazerosa e acho que estava longe de ser as obras-primas que conhecemos de Dostoievski. Vale a leitura, desde que sem comparações com outras obras do mesmo escritor.

Book Review: “A Casa na rua Mango” de Sandra Cisneros

Book Review: “A Casa na rua Mango” de Sandra Cisneros

“Amigos e vizinhos dirão: O que aconteceu com aquela Esperanza? Para onde ela foi com todos aqueles livros e papéis? Por que ela marchou para tão longe? Eles não saberão que fui embora para voltar. Pelos que eu deixei para trás. Pelos que não podem sair”

CISNEROS, Sandra. A casa na rua Mango / Sandra Cisneros; tradução de Natalia Borges Polesso. – Porto Alegre: Dublinense, 2020. Págna 143

Tenho só uma palavra para esse livro: incrível! “A casa na rua Mango”, obra de Sandra Cisneros, é um livro de altíssima sensibilidade e que nos arranca suspiros e lágrimas no decorrer na leitura.

Eu amei ter lido esse livro como o terceiro do meu clube de leitura. A obra nos conta um pouco da vida de uma garotinha chamada Esperanza, filha de imigrantes mexicanos, que vive em uma casa humilde da rua Mango, na cidade de Chicago, nos EUA.

Esperanza odeia a casa na rua Mango e deseja viver em uma mansão como as que ela assiste na TV. Outro desejo da garota é ser uma mulher independente e diferente das mulheres de sua vizinhança. Mas por que isso? Porque as mulheres de sua vizinhança são humildes, não tiveram muitas oportunidades e estão em casamentos infelizes.

A obra é contada na perspectiva da Esperanza, no momento em que ela ainda é criança e adolescente (dá para sentir que ela cresceu pela própria narrativa). Sandra Cisneros deixou a escrita super acessível (sem se preocupar com pontuações para acompanharmos o fluxo de pensamento de sua personagem) e com contos independentes (que podem ser lidos a qualquer lugar e momento).

Como a própria escritora diz, Esperanza tem muito de Sandra e a vida das duas se conversam. Sandra diz que Esperanza é voz que ela usa quando a sua verdadeira está fraca.

Esperanza tem esse nome especial (e simbólico) na obra por dois motivos: (i) o nome foi inspirado na avó da personagem, que ficava na janela sonhando com uma vida diferente (assim como a própria Esperanza sonha); e (ii) o próprio sentido da palavra, “esperança”, que é o que ela tem (de sobra) para mudar de vida completamente.

Outros pontos importantíssimos da obra são a vida e a identidade de Esperanza como uma menina estadunidense filha de imigrantes, bem como toda a infância na pobreza. A infância de Sandra conversa muito com a nossa (como meninas) e nos identificamos em vários pontos.

Esse livro precisa ser lido a cada 10 anos (pelo menos), pois com certeza você lerá novamente com uma interpretação completamente diferente. Me identifiquei MUITO com o livro e permiti com que ele causasse todos os efeitos possíveis em mim. Eu, como tantas outras mulheres, não só me vi na Esperanza como também tive “esperança” nos meus sonhos (coisa que foi consumida pela rotina de trabalho e vida financeira).

Acho que a grande mensagem desse livro é não se esquecer dos seus sonhos e não perder a esperanças neles (assim como fazemos muitas vezes na vida adulta). Esse ponto também foi importantíssimo por conta da narrativa da criança: Será que a Esperanza ainda sonhava dessa forma quando adulta?

Esse livro me fez lembrar de quem eu realmente sou e o que eu quero para mim. Eu o indico para todas as mulheres sonhadoras por aí!

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

“- Ele não sabe qual é a própria sentença ⁃ Não – repetiu o oficial. Parou por um momento, como se exigisse um fundamento mais específico da pergunta do viajante, e, então disse: – Seria inútil anunciá-la. Ele a sentirá na carne”

KAFKA, Franz (1883-1924). Na colônia penal / Franz Kafka; ilustrações de Lourenço Mutarelli; tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Editora Antofágica, 2020. Página 38.

Muitas vezes acho que grande parte da população mundial vive em um mundo kafkiano. Em um mundo em que estar informado é um privilégio e uma liberação, acredito que a grande massa desinformada se encontra como os grandes personagens de Kafka (essa é para você, Josef K.)

“O certo aqui é olhar para o buraco e deixar-se ser engolido pela escuridão. Nem todos têm o privilégio de enxergar no escuro” (p. 10)

Em mais uma obra, Kafka nos mostra um sistema de justiça desigual e totalitário. A obra nos conta a história de um pesquisador que vai visitar uma colônia penal localizada em uma ilha. Essa colônia não se submetia à legislação de outros países e era anacrônica. Tal anacronismo ocorre pelo fato de todos os outros países adotarem os direitos humanos e na ilha esses direitos básicos não existirem.

Nessa colônia penal, os condenados eram punidos fisicamente por uma máquina mortífera feita para esse propósito. Esse sistema é o mesmo utilizado no mundo no século XVIII, também conhecido como “suplício” é muito bem explorado em “Vigiar e Punir” do Foucault.

Outro traço desse sistema de suplício era que antigamente as pessoas se reuniam para ver as execuções e torturas ocorrendo. Tal prática ocorria na colônia, mas a população local não concordava mais (“como a execução era diferente em tempos passados! Um dia antes do evento, o vale inteiro já ficava cheio de gente, todo vinham apenas para assistir” p. 73).

“Não havia dúvida quanto à injustiça do processo e à desumanização da execução” (p. 65)

Nesse sistema, altamente militarizado, o condenado não sabia ler as leis e sequer sabia o motivo de sua condenação (“o oficial falava francês, e certamente nem o soldado, tampouco o condenado, compreendiam a língua” p. 26).

Outros pontos, que mostram o quanto totalitário era esse sistema, são os seguintes: (i) o comandante concentrava todas as funções para si mesmo (“então ele concentrava todas as funções em si? Era soldado, juiz, construtor, químico, projetista?” p. 35); e (ii) não há direito de defesa (“ele não teve a oportunidade de se defender – comentou o oficial” p. 39)

Claramente a colônia penal não estava de acordo com os direitos humanos, pois toda a penitência era um castigo físico feito no condenado. Esse castigo era feito por uma máquina, cujo objetivo era torturar o condenado, mas que foi considerada pelo pesquisador como uma máquina de matar.

Como um sistema totalitário, também podemos observar que a população se encontrava em situação de extrema pobreza enquanto o governo era rico (“pouco das outras casas da colônia, todas muito desgastadas, exceto pelas construções do palácio do comando” p. 131).

Esse livro é curto e bastante importante. Nos mostra temas importantes como totalitarismo, a falta de direitos humanos e a banalidade do mal. Indico a leitura para todos! Uma ótima reflexão.

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

“Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores”.

VIEIRA JUNIOR. Itamar (1979-). Torto arado: Itamar Vieira Junior. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2019. 264 páginas.

“Torto Arado” de Itamar Vieira Júnior é uma obra muito interessante que nos mostra um pouco da realidade de duas irmãs em Água Negra, uma região da Chapada Diamantina no interior da Bahia. Nessa leitura, vemos as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais (em situação de servidão) e o início de uma luta por melhoria das condições de vida no campo

Caso queira comprar a obra: https://amzn.to/34ajDOB

Eu me lembrei muito do filme “cabra marcado para morrer” dirigido por Eduardo Coutinho. O filme foi eleito como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Acho que vale assistir!

A população de Água Negra trabalhava em situação de servidão. Não recebiam salários e tinham o direito de habitar no local em casas de barro (era proibido alvenaria). A grande maioria da população era descendente de escravos, pois estes não tinham para onde ir e não receberam nenhuma ação afirmativa ao serem libertos.

O foco do livro é a vida das duas irmãs Bibiana e Belonisia. Elas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um dos trabalhadores de Água Negra e líder religioso do local. As meninas formam uma união única após brincarem com o facão de sua avó e se tornam quase que uma única pessoa no começo do livro.

A obra é dividida em três partes: “fio de corte”, “torto arado” e “rio de sangue”. A primeira parte é narrada por Bibiana, a segunda por Belonísia e a terceira por uma entidade do jarê (religião dos moradores de Água Negra).

Acredito que as grandes mensagens da obra, além de evidenciar a falta de direitos dos trabalhadores rurais, são ancestralidade e empoderamento. A ancestralidade surge em todos os momentos da obra, quando eles praticam a sua religião de matriz africana e até mesmo na relação que possuem com os seus antepassados e a terra.

Já o empoderamento ocorre quando a população se revolta com a precariedade que vivem. Outro ponto em que ele ocorre é na vida de Bibiana (quando resolve seguir seus sonhos e ajudar os pais) e Belonísia (quando fica sem a irmã e se vê em situações de violência).

É um livro bastante forte, mas que não deixa de ser lindo e de trazer reflexões importantíssimas! Eu recomendo para todos que buscam uma obra brasileira, de alta qualidade e que se passa no nordeste brasileiro.

Book Review: “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

“O sonhador, caso seja necessária uma definição minuciosa para ele, não é uma pessoa, mas sim, sabe, uma espécie de criatura do gênero neutro. Na maior parte do tempo fica em algum canto inacessível, como se quisesse esconder-se até da luz do dia, e, caso se meta no seu reduto, adere a seu canto da mesma forma que um caracol ou, pelo menos, nesse aspecto, o sonhador se parece muito com aquele animal engraçado, que é animal e casa ao mesmo tempo e que chamam de tartaruga”.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas – Tradução de Rubens Figueiredo. Penguin-Companhia das Letras. São Paulo, 2018.

A obra é a última novela escrita por Dostoiévski antes da sua sentença à pena de morte, que foi afrouxada e se tornou uma reclusão em prisão na Sibéria. O escritor foi condenado por conspiração contra o Tsar. Esse ponto é importante para analisar a obra, pois ela faz parte da primeira fase do escritor, em que há maior sensibilidade no componente romântico.

As “noites brancas” são um fenômeno natural e ocorrem durante verão russo e faz com que escureça muito tarde e por pouco tempo (só fica “de noite” das 22hrs até 1h da manhã). As noites brancas permitem com que a gente sinta um pouco esse clímax entre sonho e realidade que o personagem principal vive.

A novela nos conta sobre um rapaz sonhador, sem nome, que conhece uma mulher, chamada Nástienka, em uma ponte em São Petersburgo durante o fenômeno natural das noites brancas. Antes mesmo do sonhador conhecer Nástienka, a narrativa nos mostra um pouco da relação que ele possui com a sua cidade.

Ele, por ser um rapaz solitário, sonha e fantasia sobre todos os aspectos e detalhes da cidade, como suas casas e a população. Rubens Figueiredo nos indica que essa percepção do personagem ocorre como uma crítica à drástica modernização do promovida pelo regime tsarista, que fez com que o próprio personagem se sentisse abandonado e com um vazio existencial.

Quando o sonhador conhece Nástienka, ele compartilha um pouco sobre si para ela falando sobre seus sonhos. Já a menina conta um pouco de sua vida e de um amor que a deixou e prometeu retornar. Ela e o sonhador fazem uma amizade, na qual apenas Nástienka não nutria sentimentos de amor. Essa incorrespondência deixa o sonhador bastante abalado, o que só piora quando o amado de Nástienka retorna à cidade.

Eu, como uma boa sagitariana com Netuno na Casa 1, me identifiquei bastante com o sonhador. Isso não é uma coisa necessariamente boa, porque eu fiquei com um pouco do vazio existencial dele e a sensação de perda de tempo. Doeu? sim, mas tornou a leitura dessa obra (que muita gente não gosta) até que especial para mim.

Não considerei “Noites brancas” como uma obra-prima do escritor, mas também não é um livro ao todo ruim. Se lesse a obra e não soubesse quem a escreveu, dificilmente acertaria que é uma obra de Dostoiévski. Acho que existem outros livros mais interessantes do escritor.

Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

“A vida não é justa” é um livro escrito por Andréa Pacha, juíza que atua na Vara de Família, e que nos conta um pouco de histórias incríveis relacionadas aos casos que apareceram no decorrer de seus 15 anos de carreira.

Andréa separou histórias únicas para dividir conosco nessa leitura, como reconhecimento de paternidade (em uma perspectiva inusitada), casais idosos que se divorciam, casais novos se separando e até mesmo casamentos. Caso queira comprar o livro: https://amzn.to/2DOJ8dy

Essas histórias são curiosas, porque são datadas da transição de uma sociedade que vivia em uma ditadura militar para uma democracia com a Constituição de 1988. Logo, existem muitas questões conservadoras que ganharam um novo olhar após essa nova Constituição. Separei dois exemplos para dividir com vocês aqui.

O primeiro exemplo é a separação litigiosa com declaração da culpa da mulher: “Alguns anos antes, quem fosse considerada culpada perderia a guarda dos filhos, não receberia pensão e deixaria de usar o sobrenome do marido”. Outro seria uma tática que era usada no reconhecimento de paternidade: “Para se defenderem, nas ações de investigação de paternidade, alguns homens levavam amigos para depor e todos afirmavam que se relacionaram sexualmente com a mãe da criança. Na impossibilidade de se determinar naquelas condições quem era o pai, o pedido era rejeitado”.

Outro ponto interessante é a rapidez para sentenciar um divórcio, que é também, em partes, um reflexo da nossa sociedade líquida, como dizia Bauman. Muitas vezes, tal rapidez não está de acordo com os próprios sentimentos humanos após o divórcio, pois alguns casais, após estarem divorciados, demoram para “cair a ficha” de que tudo mudou após anos e anos de relacionamento.

"Se, por um lado, isso significou celeridade e desburocratização, por outro, no dia a dia, o que se percebe é que a rapidez e a superficialidade com que as pessoas se unem e se separam indicam o quanto a contemporaneidade tem impedido a criação de vínculos consistentes e o comprometimento afetivo, inclusive para a experiência de luto daquele que ainda ama e precisa do tempo para digerir o fim do amor".

Andréa também nos mostra alguns casos curiosos envolvendo pessoas que entravam com uma ação judicial de temas que deveriam ser resolvidos pelo próprio casal, como quem seria o responsável por levar o filho à escola.

Fiquei bastante triste com dois contos: o “Mas eu amo aquele homem…” e “Gabriel do Alemão”. O primeiro conta um pouco sobre uma vítima de violência doméstica que não conseguia sair desse ciclo de violência. Andréa aproveita para nos contar um pouco sobre como era a aplicação da lei antes da Lei Maria da Penha (o que ainda, infelizmente, ocorre em muitas delegacias!):

"Ainda não havia a Lei Maria da Penha. Algumas mulheres eram humilhadas quando recebiam o julgamento dos seus processos, que terminavam com a condenação dos agressores ao pagamento de cestas básicas. Outras, ainda nas delegacias, eram desencorajadas a fazer registro da ocorrência".

Já o caso “Gabriel do Alemão” nos conta um pouco sobre um rapaz chamado Gabriel, que foi abandonado pela mãe e não tinha documentação. Ele foi encontrado na rua e levado para um abrigo pelo Serviço Social, onde foi registrado apenas com o nome. Diferentemente da maioria das pessoas nessa situação de vulnerabilidade, Gabriel tinha um emprego formal e uma casa para morar, mas tinha um déficit de cidadania, pois não tinha uma data de nascimento escrita no documento.

Eu nunca pensei que existiria essa possibilidade de alguém sequer ter uma data de nascimento. Muito triste pensar nos efeitos da nossa desigualdade social e como isso afeta as populações mais vulneráveis em várias frentes.

Por fim, esse livro abre a nossa mente para as diversas situações que um juiz acaba encontrando durante a sua carreira. É uma experiência incrível abrir a mente com essas histórias contadas de maneira leve e emocionante pela Andréa. Recomendo muito essa leitura!