Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

“Apesar de a ciência gostar muito de leis genéricas, constantes, as pessoas, assim como se constata, gostam de ser diferentes umas das outras”

GOSHEN-GUNDAR, Ayelet. Despertar os Leões – Tradução de Paulo Geiger. Editora Todavia, 1ª ed., 2020. Loc 76

“Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen foi definitivamente um dos melhores livros que li nesse ano. A obra permitiu com que eu conhecesse um pouco da cultura israelense, dificuldades em ser refugiado e também sobre fluxos de consciência (na medida em que a própria escritora é psicóloga).

A experiência da Ayelet com a psicologia foi essencial para toda a obra. O livro nos faz entrar no psicológico de três personagens: Eitan, Liat e Sirkit. O protagonista é o Eitan, um homem branco, rico e neurocirurgião, que é casado com uma investigadora chamada Liat.

A vida dos dois é super comum e privilegiada: moram em um bairro bom, casa própria, carros e dois filhos. Mal sabia Eitan que a sua vida mudaria após um fatal crime: ele acaba atropelando um refugiado da Eritreia 🇪🇷 (um minúsculo país no continente africano) e entra em uma dívida com Sirkit (esposa da vítima).

A Sirkit é super criminosa e “prende” Eitan em sua dívida por meio de dois sentimentos humanos: culpa e desejo. Mas não muito da maneira que vocês podem estar pensando… esse livro vai te surpreender!

O livro permite com que a gente se aprofunde na consciência de todos os personagens e entramos nas neuras deles (e eles criam novas na gente também haha). Eitan é um homem bastante escroto e foi super interessante entrar na mente dele, em especial. Nesse mesmo cenário, vemos as dificuldades de Sirkit e as inseguranças de Liat.

É um livro que me deixou ansiosa e tive vontade de engolir o mais rápido possível para saber o desfecho. Ele terminou com o resultado que eu queria (aleluia, irmãos), mas não da maneira que eu pensei.

Indico fortemente essa leitura para todo mundo interessado em livro que te prende do começo ao fim e que instiga a ter questionamentos novos.

Book Review: “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” de Liudmila Petruchévskaia

Book Review: “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” de Liudmila Petruchévskaia

“A morte anda por onde não há juiz – e a morte se instalou na cidade. Gente espancada morria, na rua ou na famosa floresta do Paraíso, e não havia julgamentos ou investigações. Todos tinham medo de buscar a verdade, ninguém se queixava por roubo ou furto. porque as próprias pessoas que haviam apresentado a queixa eram presas e levadas para fora da cidade”.

PETRUCHÉVSKAIA, Liudmilla. Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha – Tradução de Cecília Rosas. Companhia das Letras. São Paulo, 2013. Página 144.

Pensa em contos russos, curtos e de terror super bons. Se você parou para pensar, com certeza deve ter lembrado da Liudmila Petruchévskaia! Que livro interessante.

Vale recordar que Liudmila foi muito censurada pelo regime da União Soviética, além de ser, atualmente, uma das escritoras contemporâneas mais proeminentes da Rússia e uma das escritores mais aclamadas de todo o leste europeu, sendo considerada uma das melhores escritores russas vivas (comparada à Poe e Gógol).

Como ela era muito censurada, você não vai encontrar palavras como “comunismo” na obra, mas sim uma descrição completa da situação de pobreza e solidão que as pessoas viviam durante o período soviético. Eu senti que a questão do machismo e angústias femininas aparecem bastante em alguns contos.

O livro é um conjunto de contos curtos de terror e com uma forte pegada política. Ele é dividido em 4 partes: Canções dos eslavos do leste, alegorias, réquiens e contos de fadas. Você consegue notar que a escritora tenta recuperar muitos elementos do folclore/contos de fada russo e trata de questões sinistras que muita gente pode se identificar (como aquela sensação de Poltergeist dentro de casa quando se está sozinho…).

São contos realmente assustadores e com finais bastante surpreendentes. Aquela sensação de ler os grandes clássicos russos permanece por conta da escrita de Liudmilla, só que se torna bastante especial ao tratar de temas do nosso mundo atual.

Os meus contos prediletos foram: “A vingança”, “Higiene”, “Tem alguém em casa”, “A menina nariz” e “O segredo de Marilena”. Esses contos falam da relação de duas vizinhas (na qual uma delas quer matar o bebê da outra), de magia envolvendo um nariz horrível em uma mulher e uma maldição que juntou duas bailarinas em uma só pessoa.

Eu indico para todo mundo que quer conhecer uma escritora russa super boa e que curte sentir um medo na leitura.

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Essa foi a escolha para o mês de julho/2020 do leitura no Clube de Leitura @LivrosdeLei e foi um sucesso! A história é emocionante e nos conta um pouco da vida de Kambili, uma menina nigeriana que vive em um mundo com fanatismo religioso, autoridade parental e o colonialismo. Caso queira comprar o livro: Hibisco roxo

Esse foi o meu primeiro contato com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie e eu fiquei bastante impressionada com o quanto a leitura de um tema tão pesado se torna leve. O livro é super fluido e é possível acabar a leitura em poucos dias.

A Kambili é uma garota adolescente que vive com o seu pai (Papa), mãe (Mama) e irmão (Jaja). A família de Kambili é bastante rica e seu pai é um famoso líder local e dono de um jornal. A garota sofre bastante com o autoritarismo e o fanatismo religioso de seu pai, que acaba agredindo fisicamente tanto ela quanto o seu irmão e a sua mãe.

A história muda quando Kambili e Jaja vão passar uns dias na casa da tia Ifeoma, irmã do Papa. Ifeoma mora em uma cidade universitária e em uma situação de pobreza diferente da vida de luxo que Kambili e Jaja vivem com seus pais. Logo, Kambili aprende outras formas de viver e convive com seus primos e o seu avô Papa-Nnukwu.

Durante esse período na casa da tia Ifeoma, Kambili mantém mais contato com o seu avô (que é visto como um “pagão” por seu pai) e com outros personagens, como o Padre Amadi – o padre de uma Igreja próxima a casa de Ifeoma. O Padre Amadi se preocupa com Kambili e a ajuda a “se soltar”, pois a menina tinha um comportamento estranho devido aos traumas que Papa introduziu em sua criação.

Eu espero ter feito você ficar com vontade de ler até aqui! Porque não quero me estender e acabar contando o fim da história, que é brilhante. O fim é totalmente inesperado e nos mostra uma nova faceta dos personagens. Ou melhor, “os humilhados sendo exaltados”. Indico esse livro para todo mundo!

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

“Yet it was in the world of smell that Flush mostly lived. Love was chiefly smell; form and colour were smell; music and architecture, law, politics and science were smell. To him religion itself was smell. To describe his simplest experience with the daily chop or biscuit is beyond our power”

Flush – Virginia Woolf
Esse livro estava na minha lista de leituras há muito tempo, mas um post da @apseudocrítica me incentivou a finalmente começar a ler. Eu o achei bastante diferente, mas que ainda foi possível sentir o toque suave e complexo da escrita de Woolf.

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A obra foi baseada nos estudos que Woolf fez sobre a trajetória de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), uma poeta inglesa do período vitoriano. Woolf acreditava que Browning deveria ter tido um impacto maior na vida dos leitores do que de fato teve. Não obstante, a vida de Browning, aparentemente, “ofuscou” suas obras, pois ela era uma mulher “polêmica para a sua época”, por ser abolicionista e auxiliar nas alterações das leis trabalhistas para crianças.

De todo modo, no começo da década de 1930, a vida de Browning (e, consequentemente, de seu cachorro Flush) estavam na mente de Virginia Woolf. A partir deste ponto, Woolf cria uma história em uma perspectiva bastante diferente: ela conta parte da história da vida de Browning (como escritora) sob o olhar de seu cachorro Flush.

Em várias partes do livro podemos notar as dificuldades que Browning tinha para escrever, assim como Woolf já havia retratado na obra “Um Teto Todo Seu”, mas o livro abarca questões bem mais complexas e contemporâneas da sua época de escrita.

O livro mostra de maneira muito clara o contexto sociopolítico do começo do século XIX, em especial na ascensão do fascismo e nazismo na Europa e a enorme desigualdade social entre ricos e pobres. De acordo com Anna Snaith, “em Flush, Woolf explora a política de rebaixamento e hierarquia ligando sistemas de valor ao longo das linhas literárias (ortodoxa e genérica), de classe, de gênero, de espécies e de raça”.

A leitura do livro é bastante leve e divertida. Flush é um personagem que analisa todos os acontecimentos, mas que não foge do nível de complexidade/individualidade que envolve os pensamentos do cão, muitas vezes mostrando um comportamento “descompensado” para os humanos, mas natural e instintivo para os animais.

Muitas vezes acabei interpretando o Flush como um senhor inglês bastante tradicional, mas acredito que este traço da personalidade dele é parte da crítica social de Woolf. Achei interessante como ela tenta nos mostrar uma desigualdade até em relação aos cães: “But the dogs of London, Flush soon discovered, are stricly divided into different classes. Some are chained dogs; some run wild. Some take their airings in carriages and drink from purple jars; others are unkempt and uncollared and pick up a living in the gutter”. Outro ponto interessante (e que realmente entendemos a crítica social) ocorre quando Flush é roubado, pois há uma descrição muito clara do bairro pobre e os contrastes com o que Flush estava acostumado.

Ainda, o livro nos mostra a viagem que Browning faz com Flush para a Itália (onde a questão do fascismo fica mais forte ainda) e o envelhecimento dos dois. E, por fim, acompanhamos o nascimento do bebê de Browning e o livro termina na morte tranquila de Flush.

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“Adia suspirou e se virou para olhar em frente, na direção de Nairóbi. Queria ser como a zebra, levar sua casa com ela, onde quer que fosse, nos próprios poros da pele”.

BENSON, Adrienne. “O Sol mais Brilhante” / Adrienne Benson; tradução Elisa Nazarian – 1 ed. – Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020. Página 292.

Hoje preparei uma resenha um pouco diferente para vocês. Como eu já havia dito na página do Instagram (@livrosdelei), o livro “O Sol mais Brilhante” da Adrienne Benson trata sobre dois assuntos muito pertinentes e que impactam diretamente a vida das mulheres: maternidade e meio ambiente.

Aqui falaremos em uma visão geral da obra, sem caracterizar todos os personagens. Caso busque uma visão geral, acesse: https://www.instagram.com/livrosdelei

Caso queira comprar a obra, acesse o link para compra: O Sol Mais Brilhante

  1. Maternidade

A questão da maternidade é muito clara durante o livro todo, pois experimentamos “o que é ser mãe” na perspectiva de quatro mulheres: Jane, Simi, Ruthie e Leona. Todas fazem o seu melhor para serem “as melhores mães” que conseguem, mas são impedidas por diversos fatores. Acredito que essa seja uma perspectiva mais real do que é ser mãe.

Jane é vista como uma boa mãe, mas assombrada pela possibilidade de sua filha ter o diagnóstico de esquizofrenia aguda, assim como o seu irmão teve. Ruthie é mãe de John, pai biológico de Aida, e que enfrenta um grande trauma após a morte de um dos seus filhos, além de sofrer com a doença de Alzheimer.

Simi é uma mulher massai que não consegue ter filhos biológicos, mas tem como maior sonho ser mãe e “adota” Aida, filha biológica de Leona com John. A mãe de Simi, uma figura importante e que molda a personagem, foi uma mulher visionária e que sempre lutou pela educação de sua filha. Infelizmente, devido ao marido violento e que gastava o dinheiro com bebida, ela não conseguiu manter Simi nos estudos. A saída de Simi da escola é parte essencial da pessoa que ela se torna na comunidade quando adulta.

Leona é uma mulher com muitos traumas e problemas sociais devido ao abuso infantil que enfrentou na infância. Tais abusos eram cometidos por seu pai e conhecidos pela sua mãe, o que deixa Leona ainda mais angustiada. O interessante é que conhecemos mais uma perspectiva de maternidade: a própria mãe de Leona se reconhece como uma “mãe ruim” e diz que é reflexo de sua mãe (avó de Leona). Logo, um fluxo de mães/pais ruins que se perpetuou na família.

Assim, como podemos ver, existem vários tipos de maternidade e que são bastante diferentes entre si. Cada tipo com suas inseguranças e realidades próprias. Acredito que essa perspectiva é importante para refletirmos sobre a romantização da maternidade, imposta pela sociedade na vida das mulheres.

2. Meio Ambiente

A questão do meio ambiente foi apresentada de maneira mais sutil, mas impacta a realidade das personagens de maneira econômica e social, em especial na percepção do que é “casa”.

O impacto econômico é muito evidente, pois ele afeta diretamente os Massai e a própria fazenda de Ruthie. De acordo com o próprio livro, sobre a fazenda de Ruthie: “tiveram dois anos de chuvas normais, e depois diversas estações secas como ossos. Estavam condenados desde o começo naquela fazenda; o tempo nunca votou a se estabelecer nos padrões dos quais eles dependiam” (p. 136).

Ainda, é possível ter uma visão geral do que estava ocorrendo no país naquele momento: “as coisas ainda estavam muito ruins, a terra continuava seca e os animais continuavam famintos, mas não havia mais para onde irem, as terras férteis se encolhiam e as terras secas cresciam” (p. 307) e “a seca tinha se estendido por muito tempo, as pessoas diziam. Agora, estava entranhada no Quênia. A população estava faminta. Os animais estavam morrendo. Os shambas, os cultivos familiares dos quais as pessoas dependiam, não passavam de pedras e poeira e, quando a chuva realmente veio, caiu rápido e com força demais para ser absorvida pelo solo nu. Não havia plantas que se agarrassem à água, que a ajudassem a se infiltrar na terra; assim, ela escorreu para longe, sem deixar nada além de rocha vulcânica e calcário, o baixo-ventre da terra, que não podia cultivar nada substancioso” (p. 207).

Outro ponto interessante é a relação que as pessoas possuem com os animais. É muito claro que as hienas são um grande perigo para as pessoas tanto em fazendas quanto em vilarejos originários. Há um medo frequente de crianças serem comidas pelas hienas, fazendo com que as mães até sonhem com o som das risadas do animal.

Todavia, em contraste, os Massai, como povo nômade, sabem exatamente como lidar com grandes felinos e outros animais. Eles e os animais vivem em harmonia na sua comunidade. Tanto que Aida, ao se deparar com um felino grande nos Estados Unidos, sabe exatamente como agir e analisar o animal.

Precisamos notar também a relação que a população tem com o consumo de carne, como é evidenciado na perspectiva de Jane: “a morte no Quênia – na verdade, em toda a África – é comum. Após anos no continente, Jane sabia disso. O gado é levado até o açougueiro e, sem preâmbulos, bem na calçada em frente ao açougue, o pescoço do animal é cortado e a carcaça é pendurada de cabeça para baixo, para que o sangue escorra. Fazer compras em feiras significa caminhar em um chão escorregadio de sangue, por corredores e corredores de cabeças decepadas e corpos sem cabeça, enfileirados em mesas, com moscas lambendo, laconicamente, os olhos vazios e vidrados dos animais mortos” (p. 267).

A natureza também está diretamente ligada com os sentimentos das personagens. Jane faz uma comparação mental linda entre o seu desenvolvimento pessoal e a jardinagem: “levava tempo, ela sabia, para arrancar todas as pragas e preparar o solo. A jardinagem era um processo; era preciso dar um passo de cada vez. Como na gravidez, pensou ou no luto. Poderia levar muito tempo, mas ela faria o jardim florescer” (p. 282).

E Aida faz observações interessantes sobre as diferenças entre o meio ambiente queniano e o estadunidense: “no seu país, a luz envolvia você como uma folha de palmeira. Mantinha-a próxima, mas era dócil. Você podia passar por ela, puxá-la à sua volta e considerá-la um aconchego. Aquela luz nova, aquela luz americana, não olhava para as pessoas que iluminava. Não se movia como a luz queniana, que sempre mudava e se alterava como algo vivo” (p. 295).

Para concluir as percepções ambientais, acho importante destacar a religiosidade. No caso de Simi, ela fez oferendas à uma árvore antiga e bastante popular em sua região. Ela acredita que existe uma relação entre seus deuses e a natureza de maneira bastante direta.

Esse livro é super interessante e indico para todos que buscam uma história maternal e bastante emocionante. Não é um livro que te deixará alegre ou fará rir, mas é uma leitura necessária para entender uma cultura diferente e questões como maternidade.

Book Review: “Um Teto Todo Seu” de Virgínia Woolf

Book Review: “Um Teto Todo Seu” de Virgínia Woolf

“She lives in you and in me, and in many other women who are not here to-night, for they are washing up the dishes and putting the children to bed. But she lives; for great poets do not die (…) opportunity will come and the dead poet who was Shakespeare’s sister will put on the body which she has so often laid down. Drawing her life from the lives of the unknown who were her forerunners, as her brother did before her, she will be born”.

WOOLF, Virginia. A Room of Ones Own (1929).

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A obra se inicia com o questionamento sobre o papel desempenhados pelas mulheres em obras de ficção. Todavia, este ponto segue como uma grande reflexão feminista sobre a questão da mulher na sociedade inglesa e a visão dos próprios homens sobre as mulheres.

Woolf aborda aspectos históricos e sociais na sua análise e a grande conclusão é de que uma mulher deve ter um teto só seu para poder escrever sobre ficção (“a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction“). A partir deste ponto, a autora destrincha essa conclusão nos próximos capítulos do livro.

Historicamente, as mulheres foram deixadas a uma situação de extrema pobreza na sociedade (“One cannot think well, love well, sleep well, if one hás not dined well”). Isso se dá na medida em que elas sequer tinham direitos iguais aos dos homens. Esse ponto pode ser melhor explorado nesse vídeo que participei com a Jane Austen – Sociedade do Brasil: https://youtu.be/EpTogYkvcTw

Cumpre ressaltar que na Inglaterra, até 1882, as mulheres tinham os mesmos direitos dados durante a Idade Média. Logo, ela não tinha capacidade jurídica para firmar contratos, não poderia ter propriedades e sequer a própria guarda dos filhos menores. Todos esses direitos eram exclusivos de seus maridos. Além de não terem direito ao recebimento do próprio salário, que era destinado diretamente aos seus maridos.

Uma reflexão super interessante foi a questão das mulheres serem o foco da maioria das obras de literatura escritas por homens (“Have you any notion how many books are written about women in the course of one year? Have you any notion how many are written by men? Are you aware that you are, perhaps, the most discussed animal in the universe?”). As mulheres são vistas como divinas e deusas, mas por que não há um reflexo dessa imagem na sociedade? Principalmente em uma sociedade que as menospreza?

Woolf busca textos de outros autores para entender o que eles falavam sobre as mulheres. Uma parte que achei interessante é a análise que ela faz de livros que deixam claramente que as mulheres são biologicamente inferiores aos homens, e que muitos homens que escrevem sobre isso querem reafirmar a sua superioridade na sociedade e não realizar uma busca científica séria (“Possibly when the professor insisted a little too emphatically upon the inferiority of women, he was concerned not with their inferiority, but with his own superiority” e “If he had written dispassionately about women, had used indisputable proofs to establishment his argument and had shown no trace of wishing that the result should be one thing rather than another, one would not have been angry either”).

Nesse ponto, Woolf sinaliza que o movimento sufragista e o primeiro movimento feminista (contemporâneo de sua época) era um grande gatilho para os homens, pois faz com que eles se questionem de sua suposta superioridade. O machismo faz com que o homem mais medíocre se sinta como um rei perto de uma mulher e os homens machistas necessitam dessa inferioridade feminina para se auto-afirmarem como os homens que a sociedade espera que sejam (“Women have served all these centuries as looking-glasses possessing the magic and delicious power of reflecting the figure of man at twice its natural size” e “That is why Napoleon and Mussolini both insist so emphatically upon the inferiority of women, for if they were not inferior, they would cease to enlarge”).

Ao se questionar dos motivos pelos quais as mulheres não escreveram sobre ficção ou viraram grandes nomes da literatura, Woolf se questiona na situação em que elas viviam. Como eram propriedade de seus pais e maridos, elas nunca tiveram voz e sequer educação para tal. Woolf duvida muito que elas tinham um espaço confortável para escrever suas obras e sequer tempo, pois muitas se casavam antes dos vinte anos de idade e ainda tinham filhos.

Logo, a autora conclui que é impossível, por exemplo, existir uma escritora do mesmo nível de Shakespeare durante o período de Shakespeare. Outro ponto interessante era o quanto desencorajador era para as mulheres se tornarem artistas, o que muda apenas no século XVIII, no qual as mulheres de classe média, como Jane Austen, começaram a escrever.

Mas aí vem outro ponto: por que as mulheres escreviam romances e não poesias ou peças de teatro? Woolf entende que esse fato aconteceu pelo fato das mulheres serem interrompidas o tempo todo durante a escrita de suas obras. Logo, o que escreviam não exigiam um altíssimo grau de concentração.

Outra interessante observação de Woolf é de que Jane Austen e Emily Brontë escreviam como mulheres, sem uma cobrança em busca do “ideal masculino”. Logo, elas escreviam “como mulheres” livres em locais de fala de “mulheres”, o que é um fato revolucionário para a época.

Acredito que também não posso deixar de ressaltar como Woolf aborda a relação que as mulheres tinham umas com as outras na literatura, logo, sobre a rivalidade feminina. A escritora ressalta que existe sororidade e que a literatura seria muito mais rica se tivesse tido grande amizade entre mulheres, assim como tiveram entre os homens (“Suppose, for instance, that men were only represented in literature as the lovers of women, and were never the friends of men, soldiers, dreamers; how few parts in the plays of Shakespeare could be allotted to them; how literature would suffer!”).