Book Review: “Crime e castigo” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Crime e castigo” de Fiódor Dostoiévski

“Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski é um livro especial. Ele enxerga humanidade em situações que poucas pessoas conseguem enxergar, como no cárcere e na situação de extrema pobreza.

É um exercício de empatia e é uma obra de tamanha sensibilidade que mal consigo exprimir um pouco do que senti durante a leitura. Esse livro é um convite para todo o tipo de gente ler e até mesmo se conhecer como pessoa. Eu me considero muito empática, mas esse livro consegue surpreender a qualquer um.

Dostoiévski conseguiu captar em sua obra a vida miserável da população pobre de São Petersburgo e criar um clássico da literatura universal.

Esse clássico nos conta um pouco sobre Raskólnikov, um jovem estudante de Direito, que vive em situação de extrema miséria. Em um momento de desespero, ele comete um crime brutal e acaba por sofrer as consequências de seus atos.

Assim como em Macbeth, uma das maneiras que ele sofre as consequências é pela sua própria consciência. De uma forma extremamente humana, Dostoiévski faz a gente ver o negacionismo de Raskólnikov e até mesmo questionamentos válidos sobre a estrutura da sociedade.

Surgem os seguintes questionamentos: Qual a diferença na responsabilidade daqueles que matam outros em guerra comparando com um assassino comum? Qual o sentido em prender pessoas por 30 anos em uma cadeia? Como cobrar sanidade das pessoas que vivem no extremo?

O que me chamou atenção foi o rótulo de criminoso. Raskólnikov lida com esse conflito de “ser ou não ser”, pois não é algo que existe, mas sim uma imposição social por uma conduta desviante. E conseguimos sentir isso “na pele” do Raskólnikov.

Ele é uma pessoa complexa como todas nós. Acredito que, acima de tudo, Raskólnikov é extremamente bom. Ele salva crianças de incêndios e vê bondade em todos independente de preconceitos. Isso que torna o exercício de empatia e sensibilidade ainda mais profundo e especial.

Que livro incrível! Tenho muito mais para falar sobre ele… mas vou me segurar aqui e ainda publicarei um vídeo explorando mais o crime e o castigo da obra. Muito obrigada por ler até aqui e espero que você tenha tido vontade de conhecer essa obra-prima da literatura universal.

Book Review: “Anna Karênina” de Leon Tolstói

Book Review: “Anna Karênina” de Leon Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras; Cada família infeliz está infeliz à sua maneira”

TOLSTÓI, Leon. Anna Karênina – Tradução de Oleg Almeida. São Paulo: Martin Claret, 2019.

Caso queira comprar o livro: Anna Kariênina

A obra “Anna Karênina” foi uma experiência única para mim por vários motivos, em especial, por ter lido em um grupo maravilhoso de Leitura Coletiva e também por ser essa obra tão genial de Tolstói.

Essa obra vai muito além do livro em si. Ela te mostra um pouco sobre os mais simples sentimentos humanos: amor, traição, crises existenciais, amadurecimento, saúde mental entre outros. Tolstói cria uma bela imersão para o leitor de todas as épocas: a gente consegue se sentir na Rússia Imperial e como parte da própria obra. Os personagens são descritos pela perspectiva dos outros, na medida em que ser algo é muito além da descrição de um narrador – então basta que a gente conheça alguém como já conhecemos na nossa vida cotidiana.

Todos os personagens são extremamente complexos. Não existe um personagem sequer que seja raso nesse livro. É uma própria obra de arte e que dá prazer em ler.

A obra nos conta um pouco sobre Anna Karênina, uma mulher aristocrata, que encontra o amor dos sonhos com um rapaz conhecido como Vrônski. Mas, como nem tudo são flores, Anna é casada e começa a ser ostratizada da sociedade ao se relacionar com o amante.

Ao meu ver, Anna é uma grande denúncia de Tolstói sobre a condição da mulher na sociedade. Toda a solidão e complexidade que a Anna se encontra acaba com a saúde mental e faz a gente entender um pouco das dificuldades da mulher russa na época.

De outro lado, temos Lióvin. Ele é um personagem que tem muitas características do escritor e vive em uma crise existencial. Ele se questiona da sua posição de privilégio e a situação dos mujiques (camponeses pobres), bem como outros pontos profundos como a existência de Deus e o que é fé.

A história de Anna e Lióvin se interconecta em algumas partes da obra. A conexão é maior por conta do amor que Lióvin sente por Kitty (irmã da cunhada de Anna). Mas não vou me prolongar por aqui, porque temo dar algum spoiler para você.

Esse livro é o meu novo predileto da vida e espero que possa ser um grande querido seu também! Fica a indicação dessa obra que me enche o coração (só de escrever até aqui).

Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

Book Review: “Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen

“Apesar de a ciência gostar muito de leis genéricas, constantes, as pessoas, assim como se constata, gostam de ser diferentes umas das outras”

GOSHEN-GUNDAR, Ayelet. Despertar os Leões – Tradução de Paulo Geiger. Editora Todavia, 1ª ed., 2020. Loc 76

“Despertar os Leões” de Ayelet Gundar-Goshen foi definitivamente um dos melhores livros que li nesse ano. A obra permitiu com que eu conhecesse um pouco da cultura israelense, dificuldades em ser refugiado e também sobre fluxos de consciência (na medida em que a própria escritora é psicóloga).

A experiência da Ayelet com a psicologia foi essencial para toda a obra. O livro nos faz entrar no psicológico de três personagens: Eitan, Liat e Sirkit. O protagonista é o Eitan, um homem branco, rico e neurocirurgião, que é casado com uma investigadora chamada Liat.

A vida dos dois é super comum e privilegiada: moram em um bairro bom, casa própria, carros e dois filhos. Mal sabia Eitan que a sua vida mudaria após um fatal crime: ele acaba atropelando um refugiado da Eritreia 🇪🇷 (um minúsculo país no continente africano) e entra em uma dívida com Sirkit (esposa da vítima).

A Sirkit é super criminosa e “prende” Eitan em sua dívida por meio de dois sentimentos humanos: culpa e desejo. Mas não muito da maneira que vocês podem estar pensando… esse livro vai te surpreender!

O livro permite com que a gente se aprofunde na consciência de todos os personagens e entramos nas neuras deles (e eles criam novas na gente também haha). Eitan é um homem bastante escroto e foi super interessante entrar na mente dele, em especial. Nesse mesmo cenário, vemos as dificuldades de Sirkit e as inseguranças de Liat.

É um livro que me deixou ansiosa e tive vontade de engolir o mais rápido possível para saber o desfecho. Ele terminou com o resultado que eu queria (aleluia, irmãos), mas não da maneira que eu pensei.

Indico fortemente essa leitura para todo mundo interessado em livro que te prende do começo ao fim e que instiga a ter questionamentos novos.

Book Review: “O eterno marido” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “O eterno marido” de Fiódor Dostoiévski

“O eterno marido” foi escrito por Dostoiévski em um período de já maturidade do autor (1870). Escolhi essa obra para ser lida depois de “O jogador” e antes de “Crime e castigo”. Essa ordem foi totalmente aleatória, mas que prejudicou muito a minha leitura, como vocês verão a seguir.

Eu terminei “O jogador”, que é uma obra curta e brilhante do escritor, que tem seu próprio tom de ironia e é extremamente divertida. “O eterno marido” também é visto por muitos como uma obra curta e divertida, então, para mim, foi inevitável fazer comparações.

O enredo é muito bom e surpreendente. A obra nos conta sobre o encontro de Pável Pávlovitch (o eterno marido) e Vieltchâninov, ex-amante de falecida esposa de Pávlovitch. Conforme a leitura, você acaba “entrando” um pouco no personagem de Vieltchâninov, pois a perspectiva da realidade da obra gira toda em torno da dele – isso fez com que eu sentisse um nojo extremo do Pávlovitch, assim como Vieltchâninov sentia.

Acho que Pávlovitch foi um dos personagens mais babacas que li nesse ano todo, mas não irei revelar os motivos por conta de spoilers. Outro ponto interessante foi a definição de “eterno marido”, que é um termo usado por Vieltchâninov:

“Em sua opinião, a essência de tais maridos consiste em serem na vida, digamos assim, “eternos maridos”, ou melhor, apenas maridos e mais nada”.

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. o eterno marido – tradução de rubens figueiredo. Companhia das letras. São Paulo, 2018. Loc. 724 no kindle oasis.

É um livro que vale a leitura. Não senti que foi uma leitura prazerosa e acho que estava longe de ser as obras-primas que conhecemos de Dostoievski. Vale a leitura, desde que sem comparações com outras obras do mesmo escritor.

Book Review: “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski

“Era a hora de ir embora, mas uma sensação estranha nasceu dentro de mim, uma vontade de desafiar o destino, um desejo de lhe dar um cascudo, de mostrar a língua para ele”

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Jogador – Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo, 2017. P. 37

Assim como Thomas Mann, achei esse romance maravilhoso! A obra foi lançada em 1867 e nos conta um pouco sobre uma viagem feita por Alexei Ivánovitch, um jovem professor sem grandes objetivos de vida e perdidamente apaixonado por Polina.

“O jogador” trata de um assunto que Dostoiévski conhecia bem, que era o jogo em cassino. Isso é até possível notar por conta dos ricos detalhes que aparecem na obra de como funcionam as casas de jogos e o comportamento dos próprios jogadores. Dostoiévski jogou, pela primeira vez, em Wiesbaden no ano de 1862. O jogo se tornou a paixão do escritor até 1871. Durante esse período, ele jogou em Baden-Baden, Homburg e Saxon-les-Bains frequentemente. Rumores de que ganhava pouco e perdia muito.

Outro ponto interessante, e abordado por Rubens Figueiredo na edição da Companhia das Letras – Penguin, é que a obra foi escrita às pressas para que o escritor pudesse saldar as suas dívidas.

Agora voltando para o livro: a narrativa se dá em primeira pessoa, no ponto de vista de Alexei Ivánovitch, que é professor e trabalha para uma família russa que viaja para um hotel alemão. O patriarca dessa família (chamado de General) está endividado com um francês chamado de Grieux e a sua grande esperança é a herança que será deixada na morte de sua avó rica (conhecida como “Vovó”).

Alexei Ivánovitch é perdidamente apaixonado pela sobrinha do patriarca (Polina) e aceita a proposta de jogar por ela no cassino. Assim, ela lhe entregava o dinheiro e ele apostava para ela. Polina não conta para ele o motivo de precisar tanto dinheiro, mas insiste para que ele jogue. Ela trata ele super mal e com bastante diferença. Ela é uma personagem bem malvada e ri bastante da cara do Alexei.

Alexei fica no escuro sem saber o que acontece até que o Mr. Astley, um senhor inglês tímido, conta o que se passa com a família russa. Mr. Astley parece estar apaixonado por Polina também e ser um nobre inglês.

Mas a histórica fica mesmo emocionante quando Alexei promete lealdade extrema à Polina e isso resulta em consequências irreversíveis. Outro ponto que amei é a Vovó, uma personagem icônica e mega divertida!

Eu gostei muito desse livro e ele é super envolvente (do começo ao fim!). Acho que é uma ótima opção, junto com “Gente pobre”, para começar a ler Dostoiévski.

Book Review: “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” de Liudmila Petruchévskaia

Book Review: “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” de Liudmila Petruchévskaia

“A morte anda por onde não há juiz – e a morte se instalou na cidade. Gente espancada morria, na rua ou na famosa floresta do Paraíso, e não havia julgamentos ou investigações. Todos tinham medo de buscar a verdade, ninguém se queixava por roubo ou furto. porque as próprias pessoas que haviam apresentado a queixa eram presas e levadas para fora da cidade”.

PETRUCHÉVSKAIA, Liudmilla. Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha – Tradução de Cecília Rosas. Companhia das Letras. São Paulo, 2013. Página 144.

Pensa em contos russos, curtos e de terror super bons. Se você parou para pensar, com certeza deve ter lembrado da Liudmila Petruchévskaia! Que livro interessante.

Vale recordar que Liudmila foi muito censurada pelo regime da União Soviética, além de ser, atualmente, uma das escritoras contemporâneas mais proeminentes da Rússia e uma das escritores mais aclamadas de todo o leste europeu, sendo considerada uma das melhores escritores russas vivas (comparada à Poe e Gógol).

Como ela era muito censurada, você não vai encontrar palavras como “comunismo” na obra, mas sim uma descrição completa da situação de pobreza e solidão que as pessoas viviam durante o período soviético. Eu senti que a questão do machismo e angústias femininas aparecem bastante em alguns contos.

O livro é um conjunto de contos curtos de terror e com uma forte pegada política. Ele é dividido em 4 partes: Canções dos eslavos do leste, alegorias, réquiens e contos de fadas. Você consegue notar que a escritora tenta recuperar muitos elementos do folclore/contos de fada russo e trata de questões sinistras que muita gente pode se identificar (como aquela sensação de Poltergeist dentro de casa quando se está sozinho…).

São contos realmente assustadores e com finais bastante surpreendentes. Aquela sensação de ler os grandes clássicos russos permanece por conta da escrita de Liudmilla, só que se torna bastante especial ao tratar de temas do nosso mundo atual.

Os meus contos prediletos foram: “A vingança”, “Higiene”, “Tem alguém em casa”, “A menina nariz” e “O segredo de Marilena”. Esses contos falam da relação de duas vizinhas (na qual uma delas quer matar o bebê da outra), de magia envolvendo um nariz horrível em uma mulher e uma maldição que juntou duas bailarinas em uma só pessoa.

Eu indico para todo mundo que quer conhecer uma escritora russa super boa e que curte sentir um medo na leitura.

Book Review: “A Volta ao Mundo em 80 Dias” de Jules Verne

Book Review: “A Volta ao Mundo em 80 Dias” de Jules Verne

“Why, you are a man of heart!” “Sometimes,” replied Phileas Fogg, quietly; “when I have time”.

VERNE, Jules. Four Novels. Canterbury Publishing House. Page 595.

“A volta ao mundo em 80 dias” foi o meu primeiro contato com as obras de Jules Verne e eu achei bastante interessante. É um livro de aventura bastante engraçado e matemático.

Eu odeio matemática (por isso virei advogada haha), mas ela foi um elemento essencial nesse livro e fez tudo parecer bem mais interessante (por incrível que pareça!).

A obra nos conta um pouco quando o monótomo Sr. Phileas Fogg, um homem inglês solitário, rico e altamente calculista, decide apostar com seus amigos do Reform Club que conseguiria dar a volta ao mundo em 80 dias por conta dos avanços tecnológicos da época. Tal assunto surge por conta de um roubo de £ 55.000,00 que ocorreu no Banco da Inglaterra, no qual o ladrão fugiu seu deixar rastros. Phileas acredita que o ladrão pode estar em qualquer lugar.

Ele e seus amigos travam uma aposta de £ 20.000,00 sendo que Phileas deve estar de volta ao Reform Club no dia 21 de dezembro de 1872. Sendo assim, Phileas parte o mais rápido possível para a viagem com o seu criado Jean Passepartout, um jovem francês recém contratado. O trajeto da viagem é o seguinte:

(1) De Londres – Para Suez (paquete e caminho-de-ferro) 7 dias / (2) De Suez – Para Bombaim (paquete) 13 dias / (3) De Bombaim – Para Calcutá (caminho-de-ferro) 3 dias / (4) De Calcutá – Para Hong Kong (paquete) 13 dias / (5) De Hong Kong – Para Yokohama (paquete) 6 dias / (6) De Yokohama – Para São Francisco (paquete) 22 dias / (7) De São Francisco – Para Nova Iorque (caminho-de-ferro) 7 dias / (8) De Nova Iorque – Para Londres (paquete e caminho-de-ferro) 9 dias.

Toda a viagem fica famosa e a Inglaterra inteira começa a torcer pelo Phileas. Todavia, durante o percurso, o detetive Fix suspeita que Phileas praticou o roubo e está de fato fugindo ao redor do mundo. Sendo assim, o detetive segue o inglês durante toda a viagem ao redor do mundo e tornou o livro ainda mais engraçado. Jean é super tonto e acaba fazendo amizade com o detetive e relevando segredos sobre seu chefe.

Não vou contar o fim do livro, pois ele é super emocionante e cheio de aventuras. O que mais gostei foi a oportunidade de descobrir mais sobre o Império Britânico e as peculiaridades das cidades nas quais eles viajaram, obviamente sob uma perspectiva eurocêntrica.

Book Review: “A Casa na rua Mango” de Sandra Cisneros

Book Review: “A Casa na rua Mango” de Sandra Cisneros

“Amigos e vizinhos dirão: O que aconteceu com aquela Esperanza? Para onde ela foi com todos aqueles livros e papéis? Por que ela marchou para tão longe? Eles não saberão que fui embora para voltar. Pelos que eu deixei para trás. Pelos que não podem sair”

CISNEROS, Sandra. A casa na rua Mango / Sandra Cisneros; tradução de Natalia Borges Polesso. – Porto Alegre: Dublinense, 2020. Págna 143

Tenho só uma palavra para esse livro: incrível! “A casa na rua Mango”, obra de Sandra Cisneros, é um livro de altíssima sensibilidade e que nos arranca suspiros e lágrimas no decorrer na leitura.

Eu amei ter lido esse livro como o terceiro do meu clube de leitura. A obra nos conta um pouco da vida de uma garotinha chamada Esperanza, filha de imigrantes mexicanos, que vive em uma casa humilde da rua Mango, na cidade de Chicago, nos EUA.

Esperanza odeia a casa na rua Mango e deseja viver em uma mansão como as que ela assiste na TV. Outro desejo da garota é ser uma mulher independente e diferente das mulheres de sua vizinhança. Mas por que isso? Porque as mulheres de sua vizinhança são humildes, não tiveram muitas oportunidades e estão em casamentos infelizes.

A obra é contada na perspectiva da Esperanza, no momento em que ela ainda é criança e adolescente (dá para sentir que ela cresceu pela própria narrativa). Sandra Cisneros deixou a escrita super acessível (sem se preocupar com pontuações para acompanharmos o fluxo de pensamento de sua personagem) e com contos independentes (que podem ser lidos a qualquer lugar e momento).

Como a própria escritora diz, Esperanza tem muito de Sandra e a vida das duas se conversam. Sandra diz que Esperanza é voz que ela usa quando a sua verdadeira está fraca.

Esperanza tem esse nome especial (e simbólico) na obra por dois motivos: (i) o nome foi inspirado na avó da personagem, que ficava na janela sonhando com uma vida diferente (assim como a própria Esperanza sonha); e (ii) o próprio sentido da palavra, “esperança”, que é o que ela tem (de sobra) para mudar de vida completamente.

Outros pontos importantíssimos da obra são a vida e a identidade de Esperanza como uma menina estadunidense filha de imigrantes, bem como toda a infância na pobreza. A infância de Sandra conversa muito com a nossa (como meninas) e nos identificamos em vários pontos.

Esse livro precisa ser lido a cada 10 anos (pelo menos), pois com certeza você lerá novamente com uma interpretação completamente diferente. Me identifiquei MUITO com o livro e permiti com que ele causasse todos os efeitos possíveis em mim. Eu, como tantas outras mulheres, não só me vi na Esperanza como também tive “esperança” nos meus sonhos (coisa que foi consumida pela rotina de trabalho e vida financeira).

Acho que a grande mensagem desse livro é não se esquecer dos seus sonhos e não perder a esperanças neles (assim como fazemos muitas vezes na vida adulta). Esse ponto também foi importantíssimo por conta da narrativa da criança: Será que a Esperanza ainda sonhava dessa forma quando adulta?

Esse livro me fez lembrar de quem eu realmente sou e o que eu quero para mim. Eu o indico para todas as mulheres sonhadoras por aí!

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

“- Ele não sabe qual é a própria sentença ⁃ Não – repetiu o oficial. Parou por um momento, como se exigisse um fundamento mais específico da pergunta do viajante, e, então disse: – Seria inútil anunciá-la. Ele a sentirá na carne”

KAFKA, Franz (1883-1924). Na colônia penal / Franz Kafka; ilustrações de Lourenço Mutarelli; tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Editora Antofágica, 2020. Página 38.

Muitas vezes acho que grande parte da população mundial vive em um mundo kafkiano. Em um mundo em que estar informado é um privilégio e uma liberação, acredito que a grande massa desinformada se encontra como os grandes personagens de Kafka (essa é para você, Josef K.)

“O certo aqui é olhar para o buraco e deixar-se ser engolido pela escuridão. Nem todos têm o privilégio de enxergar no escuro” (p. 10)

Em mais uma obra, Kafka nos mostra um sistema de justiça desigual e totalitário. A obra nos conta a história de um pesquisador que vai visitar uma colônia penal localizada em uma ilha. Essa colônia não se submetia à legislação de outros países e era anacrônica. Tal anacronismo ocorre pelo fato de todos os outros países adotarem os direitos humanos e na ilha esses direitos básicos não existirem.

Nessa colônia penal, os condenados eram punidos fisicamente por uma máquina mortífera feita para esse propósito. Esse sistema é o mesmo utilizado no mundo no século XVIII, também conhecido como “suplício” é muito bem explorado em “Vigiar e Punir” do Foucault.

Outro traço desse sistema de suplício era que antigamente as pessoas se reuniam para ver as execuções e torturas ocorrendo. Tal prática ocorria na colônia, mas a população local não concordava mais (“como a execução era diferente em tempos passados! Um dia antes do evento, o vale inteiro já ficava cheio de gente, todo vinham apenas para assistir” p. 73).

“Não havia dúvida quanto à injustiça do processo e à desumanização da execução” (p. 65)

Nesse sistema, altamente militarizado, o condenado não sabia ler as leis e sequer sabia o motivo de sua condenação (“o oficial falava francês, e certamente nem o soldado, tampouco o condenado, compreendiam a língua” p. 26).

Outros pontos, que mostram o quanto totalitário era esse sistema, são os seguintes: (i) o comandante concentrava todas as funções para si mesmo (“então ele concentrava todas as funções em si? Era soldado, juiz, construtor, químico, projetista?” p. 35); e (ii) não há direito de defesa (“ele não teve a oportunidade de se defender – comentou o oficial” p. 39)

Claramente a colônia penal não estava de acordo com os direitos humanos, pois toda a penitência era um castigo físico feito no condenado. Esse castigo era feito por uma máquina, cujo objetivo era torturar o condenado, mas que foi considerada pelo pesquisador como uma máquina de matar.

Como um sistema totalitário, também podemos observar que a população se encontrava em situação de extrema pobreza enquanto o governo era rico (“pouco das outras casas da colônia, todas muito desgastadas, exceto pelas construções do palácio do comando” p. 131).

Esse livro é curto e bastante importante. Nos mostra temas importantes como totalitarismo, a falta de direitos humanos e a banalidade do mal. Indico a leitura para todos! Uma ótima reflexão.

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

“Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores”.

VIEIRA JUNIOR. Itamar (1979-). Torto arado: Itamar Vieira Junior. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2019. 264 páginas.

“Torto Arado” de Itamar Vieira Júnior é uma obra muito interessante que nos mostra um pouco da realidade de duas irmãs em Água Negra, uma região da Chapada Diamantina no interior da Bahia. Nessa leitura, vemos as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais (em situação de servidão) e o início de uma luta por melhoria das condições de vida no campo

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Eu me lembrei muito do filme “cabra marcado para morrer” dirigido por Eduardo Coutinho. O filme foi eleito como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Acho que vale assistir!

A população de Água Negra trabalhava em situação de servidão. Não recebiam salários e tinham o direito de habitar no local em casas de barro (era proibido alvenaria). A grande maioria da população era descendente de escravos, pois estes não tinham para onde ir e não receberam nenhuma ação afirmativa ao serem libertos.

O foco do livro é a vida das duas irmãs Bibiana e Belonisia. Elas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um dos trabalhadores de Água Negra e líder religioso do local. As meninas formam uma união única após brincarem com o facão de sua avó e se tornam quase que uma única pessoa no começo do livro.

A obra é dividida em três partes: “fio de corte”, “torto arado” e “rio de sangue”. A primeira parte é narrada por Bibiana, a segunda por Belonísia e a terceira por uma entidade do jarê (religião dos moradores de Água Negra).

Acredito que as grandes mensagens da obra, além de evidenciar a falta de direitos dos trabalhadores rurais, são ancestralidade e empoderamento. A ancestralidade surge em todos os momentos da obra, quando eles praticam a sua religião de matriz africana e até mesmo na relação que possuem com os seus antepassados e a terra.

Já o empoderamento ocorre quando a população se revolta com a precariedade que vivem. Outro ponto em que ele ocorre é na vida de Bibiana (quando resolve seguir seus sonhos e ajudar os pais) e Belonísia (quando fica sem a irmã e se vê em situações de violência).

É um livro bastante forte, mas que não deixa de ser lindo e de trazer reflexões importantíssimas! Eu recomendo para todos que buscam uma obra brasileira, de alta qualidade e que se passa no nordeste brasileiro.