Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

“- Ele não sabe qual é a própria sentença ⁃ Não – repetiu o oficial. Parou por um momento, como se exigisse um fundamento mais específico da pergunta do viajante, e, então disse: – Seria inútil anunciá-la. Ele a sentirá na carne”

KAFKA, Franz (1883-1924). Na colônia penal / Franz Kafka; ilustrações de Lourenço Mutarelli; tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Editora Antofágica, 2020. Página 38.

Muitas vezes acho que grande parte da população mundial vive em um mundo kafkiano. Em um mundo em que estar informado é um privilégio e uma liberação, acredito que a grande massa desinformada se encontra como os grandes personagens de Kafka (essa é para você, Josef K.)

“O certo aqui é olhar para o buraco e deixar-se ser engolido pela escuridão. Nem todos têm o privilégio de enxergar no escuro” (p. 10)

Em mais uma obra, Kafka nos mostra um sistema de justiça desigual e totalitário. A obra nos conta a história de um pesquisador que vai visitar uma colônia penal localizada em uma ilha. Essa colônia não se submetia à legislação de outros países e era anacrônica. Tal anacronismo ocorre pelo fato de todos os outros países adotarem os direitos humanos e na ilha esses direitos básicos não existirem.

Nessa colônia penal, os condenados eram punidos fisicamente por uma máquina mortífera feita para esse propósito. Esse sistema é o mesmo utilizado no mundo no século XVIII, também conhecido como “suplício” é muito bem explorado em “Vigiar e Punir” do Foucault.

Outro traço desse sistema de suplício era que antigamente as pessoas se reuniam para ver as execuções e torturas ocorrendo. Tal prática ocorria na colônia, mas a população local não concordava mais (“como a execução era diferente em tempos passados! Um dia antes do evento, o vale inteiro já ficava cheio de gente, todo vinham apenas para assistir” p. 73).

“Não havia dúvida quanto à injustiça do processo e à desumanização da execução” (p. 65)

Nesse sistema, altamente militarizado, o condenado não sabia ler as leis e sequer sabia o motivo de sua condenação (“o oficial falava francês, e certamente nem o soldado, tampouco o condenado, compreendiam a língua” p. 26).

Outros pontos, que mostram o quanto totalitário era esse sistema, são os seguintes: (i) o comandante concentrava todas as funções para si mesmo (“então ele concentrava todas as funções em si? Era soldado, juiz, construtor, químico, projetista?” p. 35); e (ii) não há direito de defesa (“ele não teve a oportunidade de se defender – comentou o oficial” p. 39)

Claramente a colônia penal não estava de acordo com os direitos humanos, pois toda a penitência era um castigo físico feito no condenado. Esse castigo era feito por uma máquina, cujo objetivo era torturar o condenado, mas que foi considerada pelo pesquisador como uma máquina de matar.

Como um sistema totalitário, também podemos observar que a população se encontrava em situação de extrema pobreza enquanto o governo era rico (“pouco das outras casas da colônia, todas muito desgastadas, exceto pelas construções do palácio do comando” p. 131).

Esse livro é curto e bastante importante. Nos mostra temas importantes como totalitarismo, a falta de direitos humanos e a banalidade do mal. Indico a leitura para todos! Uma ótima reflexão.

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

Book Review: “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior

“Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores”.

VIEIRA JUNIOR. Itamar (1979-). Torto arado: Itamar Vieira Junior. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2019. 264 páginas.

“Torto Arado” de Itamar Vieira Júnior é uma obra muito interessante que nos mostra um pouco da realidade de duas irmãs em Água Negra, uma região da Chapada Diamantina no interior da Bahia. Nessa leitura, vemos as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais (em situação de servidão) e o início de uma luta por melhoria das condições de vida no campo

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Eu me lembrei muito do filme “cabra marcado para morrer” dirigido por Eduardo Coutinho. O filme foi eleito como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Acho que vale assistir!

A população de Água Negra trabalhava em situação de servidão. Não recebiam salários e tinham o direito de habitar no local em casas de barro (era proibido alvenaria). A grande maioria da população era descendente de escravos, pois estes não tinham para onde ir e não receberam nenhuma ação afirmativa ao serem libertos.

O foco do livro é a vida das duas irmãs Bibiana e Belonisia. Elas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um dos trabalhadores de Água Negra e líder religioso do local. As meninas formam uma união única após brincarem com o facão de sua avó e se tornam quase que uma única pessoa no começo do livro.

A obra é dividida em três partes: “fio de corte”, “torto arado” e “rio de sangue”. A primeira parte é narrada por Bibiana, a segunda por Belonísia e a terceira por uma entidade do jarê (religião dos moradores de Água Negra).

Acredito que as grandes mensagens da obra, além de evidenciar a falta de direitos dos trabalhadores rurais, são ancestralidade e empoderamento. A ancestralidade surge em todos os momentos da obra, quando eles praticam a sua religião de matriz africana e até mesmo na relação que possuem com os seus antepassados e a terra.

Já o empoderamento ocorre quando a população se revolta com a precariedade que vivem. Outro ponto em que ele ocorre é na vida de Bibiana (quando resolve seguir seus sonhos e ajudar os pais) e Belonísia (quando fica sem a irmã e se vê em situações de violência).

É um livro bastante forte, mas que não deixa de ser lindo e de trazer reflexões importantíssimas! Eu recomendo para todos que buscam uma obra brasileira, de alta qualidade e que se passa no nordeste brasileiro.

Book Review: “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Noites brancas” de Fiódor Dostoiévski

“O sonhador, caso seja necessária uma definição minuciosa para ele, não é uma pessoa, mas sim, sabe, uma espécie de criatura do gênero neutro. Na maior parte do tempo fica em algum canto inacessível, como se quisesse esconder-se até da luz do dia, e, caso se meta no seu reduto, adere a seu canto da mesma forma que um caracol ou, pelo menos, nesse aspecto, o sonhador se parece muito com aquele animal engraçado, que é animal e casa ao mesmo tempo e que chamam de tartaruga”.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas – Tradução de Rubens Figueiredo. Penguin-Companhia das Letras. São Paulo, 2018.

A obra é a última novela escrita por Dostoiévski antes da sua sentença à pena de morte, que foi afrouxada e se tornou uma reclusão em prisão na Sibéria. O escritor foi condenado por conspiração contra o Tsar. Esse ponto é importante para analisar a obra, pois ela faz parte da primeira fase do escritor, em que há maior sensibilidade no componente romântico.

As “noites brancas” são um fenômeno natural e ocorrem durante verão russo e faz com que escureça muito tarde e por pouco tempo (só fica “de noite” das 22hrs até 1h da manhã). As noites brancas permitem com que a gente sinta um pouco esse clímax entre sonho e realidade que o personagem principal vive.

A novela nos conta sobre um rapaz sonhador, sem nome, que conhece uma mulher, chamada Nástienka, em uma ponte em São Petersburgo durante o fenômeno natural das noites brancas. Antes mesmo do sonhador conhecer Nástienka, a narrativa nos mostra um pouco da relação que ele possui com a sua cidade.

Ele, por ser um rapaz solitário, sonha e fantasia sobre todos os aspectos e detalhes da cidade, como suas casas e a população. Rubens Figueiredo nos indica que essa percepção do personagem ocorre como uma crítica à drástica modernização do promovida pelo regime tsarista, que fez com que o próprio personagem se sentisse abandonado e com um vazio existencial.

Quando o sonhador conhece Nástienka, ele compartilha um pouco sobre si para ela falando sobre seus sonhos. Já a menina conta um pouco de sua vida e de um amor que a deixou e prometeu retornar. Ela e o sonhador fazem uma amizade, na qual apenas Nástienka não nutria sentimentos de amor. Essa incorrespondência deixa o sonhador bastante abalado, o que só piora quando o amado de Nástienka retorna à cidade.

Eu, como uma boa sagitariana com Netuno na Casa 1, me identifiquei bastante com o sonhador. Isso não é uma coisa necessariamente boa, porque eu fiquei com um pouco do vazio existencial dele e a sensação de perda de tempo. Doeu? sim, mas tornou a leitura dessa obra (que muita gente não gosta) até que especial para mim.

Não considerei “Noites brancas” como uma obra-prima do escritor, mas também não é um livro ao todo ruim. Se lesse a obra e não soubesse quem a escreveu, dificilmente acertaria que é uma obra de Dostoiévski. Acho que existem outros livros mais interessantes do escritor.

Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

“A vida não é justa” é um livro escrito por Andréa Pacha, juíza que atua na Vara de Família, e que nos conta um pouco de histórias incríveis relacionadas aos casos que apareceram no decorrer de seus 15 anos de carreira.

Andréa separou histórias únicas para dividir conosco nessa leitura, como reconhecimento de paternidade (em uma perspectiva inusitada), casais idosos que se divorciam, casais novos se separando e até mesmo casamentos. Caso queira comprar o livro: https://amzn.to/2DOJ8dy

Essas histórias são curiosas, porque são datadas da transição de uma sociedade que vivia em uma ditadura militar para uma democracia com a Constituição de 1988. Logo, existem muitas questões conservadoras que ganharam um novo olhar após essa nova Constituição. Separei dois exemplos para dividir com vocês aqui.

O primeiro exemplo é a separação litigiosa com declaração da culpa da mulher: “Alguns anos antes, quem fosse considerada culpada perderia a guarda dos filhos, não receberia pensão e deixaria de usar o sobrenome do marido”. Outro seria uma tática que era usada no reconhecimento de paternidade: “Para se defenderem, nas ações de investigação de paternidade, alguns homens levavam amigos para depor e todos afirmavam que se relacionaram sexualmente com a mãe da criança. Na impossibilidade de se determinar naquelas condições quem era o pai, o pedido era rejeitado”.

Outro ponto interessante é a rapidez para sentenciar um divórcio, que é também, em partes, um reflexo da nossa sociedade líquida, como dizia Bauman. Muitas vezes, tal rapidez não está de acordo com os próprios sentimentos humanos após o divórcio, pois alguns casais, após estarem divorciados, demoram para “cair a ficha” de que tudo mudou após anos e anos de relacionamento.

"Se, por um lado, isso significou celeridade e desburocratização, por outro, no dia a dia, o que se percebe é que a rapidez e a superficialidade com que as pessoas se unem e se separam indicam o quanto a contemporaneidade tem impedido a criação de vínculos consistentes e o comprometimento afetivo, inclusive para a experiência de luto daquele que ainda ama e precisa do tempo para digerir o fim do amor".

Andréa também nos mostra alguns casos curiosos envolvendo pessoas que entravam com uma ação judicial de temas que deveriam ser resolvidos pelo próprio casal, como quem seria o responsável por levar o filho à escola.

Fiquei bastante triste com dois contos: o “Mas eu amo aquele homem…” e “Gabriel do Alemão”. O primeiro conta um pouco sobre uma vítima de violência doméstica que não conseguia sair desse ciclo de violência. Andréa aproveita para nos contar um pouco sobre como era a aplicação da lei antes da Lei Maria da Penha (o que ainda, infelizmente, ocorre em muitas delegacias!):

"Ainda não havia a Lei Maria da Penha. Algumas mulheres eram humilhadas quando recebiam o julgamento dos seus processos, que terminavam com a condenação dos agressores ao pagamento de cestas básicas. Outras, ainda nas delegacias, eram desencorajadas a fazer registro da ocorrência".

Já o caso “Gabriel do Alemão” nos conta um pouco sobre um rapaz chamado Gabriel, que foi abandonado pela mãe e não tinha documentação. Ele foi encontrado na rua e levado para um abrigo pelo Serviço Social, onde foi registrado apenas com o nome. Diferentemente da maioria das pessoas nessa situação de vulnerabilidade, Gabriel tinha um emprego formal e uma casa para morar, mas tinha um déficit de cidadania, pois não tinha uma data de nascimento escrita no documento.

Eu nunca pensei que existiria essa possibilidade de alguém sequer ter uma data de nascimento. Muito triste pensar nos efeitos da nossa desigualdade social e como isso afeta as populações mais vulneráveis em várias frentes.

Por fim, esse livro abre a nossa mente para as diversas situações que um juiz acaba encontrando durante a sua carreira. É uma experiência incrível abrir a mente com essas histórias contadas de maneira leve e emocionante pela Andréa. Recomendo muito essa leitura!

Book Review: “Gente Pobre” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Gente Pobre” de Fiódor Dostoiévski

“E depois a gente rica não gosta de ouvir os pobres se queixando de sua má sorte – dizem que incomodam, que são impertinentes! A pobreza é sempre impertinente mesmo – talvez porque seus gemidos famintos lhes perturbem o sono!”

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente Pobre – Tradução de Fátima Bianchi. Editora 34. São Paulo, 2020. Página 138.

Queria começar a resenha dizendo que esse é um livro que te faz repensar todos os seus privilégios e que faz com que você sinta a dor e a pobreza dos personagens. Sem contar também a conexão super interessante que Dostoiévski faz com outras obras russas.

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“Gente Pobre” foi o livro de estreia de Dostoiévski e já chega com uma proposta bastante diferente do que havia na época. Ele, sempre firme em suas convicções, colocou pessoas pobres como foco do enredo, permitindo que a gente sinta a injustiça social na fala simples de seus personagens principais (Makar Diévuchkin e Varvara Dobrosiólova).

A narrativa é feita no formato de cartas trocadas entre os dois personagens nomeados acima. Ambos são pobres e estão à beira da miséria total (não ter o que comer e onde dormir). Varvara é uma moça jovem e órfã, que possui Makar, um senhor de 50 anos, como único parente mais próximo. O primeiro objetivo nessa troca de cartas é melhorar a escrita de Makar, que estava precária e precisava treinar.

Estão descritas nessas cartas as necessidades e um pouco da rotina dos personagens. Makar dava o pouco de dinheiro que conseguia para Varvara, por meio de presentes simples (como balas), com o objetivo de diminuir o sofrimento da menina que vive na pobreza. Mas ele acabava sem ter roupas para ir trabalhar e vivia sendo chacota de seus colegas de trabalho.

Uma parte que me afetou muito foi a descrição das chacotas que Makar vivia, e que muito pareciam as sofridas pelo protagonista de “O Capote” de Gógol até pelo fato de ambos os personagens serem copiadores de uma repartição pública:
"Para que serve isso? Será que por isso algum leitor vai me comprar um capote? (...) Às vezes você se esconde, se esconde, oculta-se naquilo que não domina, tem medopor vezes de mostrar o nariz seja onde for, porque teme os mexericos, porque, de tudo o que há no mundo, de tudo que lhe armam uma pasquinada, e eis que toda a sua vida civil e familiar anda pela literatura, tudo impresso, lido, ridicularizado, bisbilhotado! (...) pode-se reconhecer um dos nossos só pelo andar" (p. 95).

Outras descrições que me chamam atenção são do local onde vivem, das mortes por doenças e como as crianças reagem frente à pobreza, como, por exemplo, em “Como não gosto Várienka, minha filha, quando vejo uma criança pensativa; é uma coisa desagradável de ver! No chão, ao lado dela, tem uma boneca de pano – mas ela não está brincando” (p. 72).

Makar chega a procurar um agiota para conseguir dinheiro e pagar sua dívidas e alimento. Mas, outra cena que me marcou muito foi quando ele estava prestes a levar um esporro de seu superior, mas o botão de sua camisa sai. O superior começa a notar as roupas de Makar e, em um ato de nobreza, oferece uma boa quantia de dinheiro para ajudar o pobre homem. Makar diz que nunca se sentiu tão especial e digno durante toda a sua vida:

"juro-lhe que os cem rublos não me são tão caros quanto o fato de Sua Excelência em pessoa ter se dignado a apertar-me a mão indigna, a mim, um pulha, um bêbado! (...) Com esse gesto, ressuscitou o meu espírito, tornou minha vida mais doce para sempre" (p.147).

Já Várienka, apesar de toda a dificuldade, tenta se mostrar positiva (“lembre-se que a pobreza não é defeito. Então por que se desesperar: isso tudo é passageiro! Se Deus quiser” p. 125). Mas, como o destino é cruel, a sua única saída é partir para um casamento infeliz com um senhor de classe social superior.

Book Review: “O Duelo” de A. P. Tcherkhov

Book Review: “O Duelo” de A. P. Tcherkhov

“Sou um homem fútil, medíocre, degradado! O ar que respiro, esse vinho, o amor, em uma palavra, a vida, eu a comprei até agora com mentiras, ócio e covardia. Até agora fiquei enganando os outros e a mim mesmo, sofria com isso e os meus sofrimentos eram baratos e vulgares. Eu me curvo timidamente diante do ódio de Von Koren porque de tempos em tempos eu mesmo me odeio e me desprezo”.

TCHEKHOV, A. P. O Duelo – Tradução de Marina Tenório. Editora 34. São Paulo, 2018.

Fiquei bastante curiosa para ler “O Duelo” de A. P. Tcherkhov, pelo fato dos duelos aparecerem tanto nas obras russas. No posfácio dessa edição da Editora 34 explica que os duelos não são uma tradição medieval como é observado na Europa, mas que foi introduzido pelos nobres russos muito tardiamente (historicamente).

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A obra nos conta um pouco sobre Laiévski, um homem supérfluo e que acredito ser uma espécie de Vronski de Anna Karênina. Laiévski é um homem supérfluo (caso você tenha interesse em saber mais sobre esse “personagem” da literatura, sugiro que leia o post sobre “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev) que vive com Nadiéjda Fiódorovna, uma mulher casada de classe social inferior.

Eu identifiquei muito de Anna Karênina em Nadiéjda Fiódorovna, em especial pelo sofrimento e exclusão que ela passa. Sem contar também o descaso que Laiévski possui frente a ela (assim como Vronski teve com Anna) e a viagem para um local mais quente (como Anna e Vronski fizeram para a Itália). Outra figura (muito parecida com a Dolly de Anna Karênina) é a Mária Konstantínovna, a única amiga de Nadiéjda Fiódorovna, e que possui uma grande dualidade, no sentido de gostar muito da amiga, mas também ter vários preconceitos em face dela.

O duelo ocorre quando Laiévski se desentende com Von Koren, um cientista que quer mudar radicalmente a sociedade russa – o que entra em conflito com a qualidade de “homem supérfluo” de Laiévski. Um ponto interessante é como os personagens refletem o quanto é arcaico o duelo, mas, ao mesmo tempo, não desistem por “uma questão de honra”.

Recomendo a leitura desse livro para quem já está familiarizado com a literatura russa. Acho que essa obra é mais enriquecedora após leituras anteriores.

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

“Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor”

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. As vozes de Tchernóbil – Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.

Eu sempre me interessei bastante em livros no formato de relatos. Todo mundo me indicava começar com os livros da Svetlana Aleksiévitch e, dentre todos os publicados, me interessei mais por “Vozes de Tchernóbil” (até mesmo por ter assistido a série da HBO que, por sinal, foi muito bem recebida pela crítica).

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A escrita do livro é incrível e eu me senti como se estivesse ao lado da escritora entrevistando os sobreviventes. Ela descreve a ordem dos fatos narrados e ainda as sensações/reações dos entrevistados com maestria. Dá para sentir a dor dos acontecimentos, mas também como as pessoas se sentiam com a conjuntura política da época.

Muitos dos entrevistados possuem um histórico de guerra e foram preparados para isso. Depois de anos de traumas da guerra e acreditando que a natureza (sempre aliada) nunca os faria mal, fez com que o crime de Tchernóbil não fosse tão facilmente compreendido por eles. Sequer os especialistas estavam preparados, pois eles tinham sido educados para outro tipo de situação, na medida em que ninguém sequer imaginaria um desastre nessas proporções.

Outro ponto interessante dos entrevistados é como eles ainda se identificam com a União Soviética. É muito simplista pensar que eles não “acompanharam a mudança” e ser esse o único motivo para tal identificação. Precisamos entender que essas pessoas foram educadas a acreditar, durante a vida toda, que eram comunistas soviéticos. Não é uma ideia fácil de ser desconstruída e achei esse ponto um dos mais interessantes do livro.

Gostei bastante também da abordagem que a escritora teve na questão ambiental, que fica evidente na entrevista de pessoas engajadas na causa e até mesmo a percepção de idosos que habitam por lá. A parte da morte dos animais domésticos me deixou muito triste, em especial, a morte dos cães. Sim, eu fiquei triste por ser o meu animal predileto, mas também por eles terem ficado em frente das casas esperando o retorno de seus donos.

Eu, Anna, acredito que devemos pensar e falar mais sobre Tchernóbil. Mas não da maneira que falamos nos últimos tempos, até mesmo limitando a existência das pessoas de “pessoa de Tchernóbil” e com vises inconscientes discriminatórios (como muitos relataram no livro). Vamos pensar no modelo de sociedade que queremos para o futuro: seria esse modelo compatível com geração de energia nuclear? Como diminuir o nosso impacto ambiental e corrigir excessos? Fica os questionamentos!

Por fim, só gostaria de lembrar que o livro faz descrições tristes sobre deformidades e mortes de pessoas guerreiras que enfrentaram o inimigo invisível, também conhecido como radioatividade. Então, caso queira ler, lembre deste ponto.

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

“Supérfluo, supérfluo… Encontrei uma palavra excelente. Quanto mais profundamente me perscruto, quanto mais atentamente examino a minha vida pregressa, mais me convenço da estrita exatidão desse termo. Supérfluo – é isso.

TURGUÊNIEV, Ivan. Diário de um homem supérfluo / tradução, posfácio e notas de Samuel Junqueira. São Paulo: Editora 34, 2019. p. 17

Essa obra é um clássico na história da literatura e teve um papel muito importante, em especial, na literatura russa. Caso queria comprar o livro, aqui está um link de compra: https://amzn.to/2Df411e

É a primeira vez em que temos contato com o psicológico do “homem supérfluo”, uma figura que já era presente na literatura russa, mas que ganhou uma maior complexidade na obra de Turguêniev.

O livro nos mostra um pouco o diário de Tchulkatúrin, um homem que está em seu leito de morte e que relembra o seu amor por Liza, filha de um proprietário de terras, bem como expressa a sua frustração com a vida. Há grande ênfase nesse amor por Liza, pois é o único acontecimento relevante que ocorre na vida de Tchulkatúrin, por mais frustante que essa experiência tenha sido (Liza o desprezava).

Essa frustração é uma característica marcante da figura do “homem supérfluo” da literatura russa. Mas, afinal, quem eram esses homens supérfluos? De acordo com Samuel Junqueira, eles são “jovens de origem nobre, dotados de grande capacidade intelectual e dos mais elevados princípios morais, mas também incapacitados para a ação, para a luta”.

É importante ressaltar que ocorreram grandes acontecimentos na primeira metade dos anos 1800 na Rússia, como omo a Revolta Dezembrista (1825) e a emancipação dos servos (1861). Os referidos eventos criaram um sentimento de união e busca por mudanças por parte da sociedade russa, em especial na juventude russa.

Todavia, por mais que os jovens estivessem com esse espírito revolucionário, eles não tinham como colocar seus ideais em ação, pois o regime do tzar Nicolau I tinha como característica a repressão e a censura. Logo, diante da impossibilidade de ação em um regime opressor e anacrônico, surge o Homem Supérlfuo.

Outro ponto interessante é que a obra de Turguêniev foi quase que inteiramente modificada pela censura em sua publicação. Apenas em 1856 que a obra é reestruturada com os trechos originais.

Na obra, Turguêniev cria tamanha profundidade para o personagem que acaba criando uma infância para ele. Logo, neste momento, surge a “criança supérflua” na literatura.

A leitura flui super bem e o narrador, apesar de sua situação trágica no leito de morte, se torna engraçado. Muitas vezes me pareceu bastante com “Memórias póstumas de Brás Cubas” do Machado de Assis. Eu recomendo bastante a leitura desse clássico e espero que esse apanhado histórico e análise literária de Samuel Junqueira enriqueça a leitura de todos!

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

“A luz das estrelas o socorreu. A pura beleza das dunas do deserto testemunhou a seu favor. Anjos de todas as denominações o apoiaram em silêncio”

NAKHJAVANI, Bahiyyih. O Alforje – Tradução de Rubens Figueiredo. 2ª Edição. Editora Dublinense. Porto Alegre, 2019.

“O Alforje” foi o meu primeiro contato com as obras de Nakhajavani e estou encantada. O enredo e a forma de escrita são incríveis e deixam a leitura fluida e interessante do começo ao fim. Caso queira comprar: https://amzn.to/3kynNFT

A escrita é doce e profunda. É um livro que trata sobre diferentes tipos de fé e personagens que se encontram e unem o destino por conta de um alforje (que eu considerei como mágico). Uma dificuldade que encontrei na leitura foi o choque cultural, pois não estava acostumada com os termos e a violência com que as mulheres são submetidas na obra.

Eu considerei como uma obra violenta, mas, ao mesmo tempo, envolvente e leve. A doçura e profundidade que Nakhajavani escreve é única e nos faz apaixonar.

A obra basicamente narra o assalto que há na caravana de uma noiva e o encontro com um corpo morto caído dos céus, todavia, na perspectiva de vários personagens que presenciam o evento. Então, há capítulos destinados à noiva, aos assaltantes, sacerdote, escrava, etc. Todos esses personagens se interligam não apenas por conta do acontecimento, mas também por conta de um misterioso alforje.

Cada personagem tem a sua própria bagagem cultural, um passado e uma religiosidade específica. Acho que esse ponto é o mais enriquecedor de toda a leitura. Achei também que o alforje era mágico e passava uma mensagem diferente para cada um que o pegava.

Mesmo tratando de um mesmo evento (e com pequenos flashbacks do passado de cada personagem) não achei repetitivo, mas super interessante. Indico fortemente para todos em busca de uma escrita linda (que “amacia a nossa mente” ) e uma cultura diferente.

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

“He was too simple to wonder when he had attained humility. But he knew he had attained it and he knew it was not disgraceful and it carried no loss of true pride”.

HEMINGWAY, Ernest. Old Man and The Sea.

Esse é um dos meus livros prediletos da vida. Eu nunca chorei tanto ao terminar de ler um livro. Não chorei por tristeza, mas de emoção por acabar de ler uma obra tão linda. Caso queira comprar o livro, aqui está o link para compra: O velho e o mar

Durante a leitura fiquei com raiva do Santiago, mas também torci por ele. Foi um livro cheio de emoção. Rumores de que Hemingway enviou, junto com uma cópia original de “O velho e o mar”, um bilhete pro seu editor dizendo “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda” e isso fez muito sentido para mim, pois sei que são poucos os livros nesse nível que lerei na minha vida.¹.

A obra nos conta um pouco da história de Santiago, um pescador cubano idoso, que se encontra em uma maré de azar e ficou 84 dias sem conseguir um pescar um peixe (“Velho“). Ele sonhava com leões, que era uma memória feliz da sua infância e não mais com mulheres, brigas e peixes grandes (“He no longer dreamed of storms, nor women, nor of great occurrences, nor of great fish, nor fights, nor contests of strength, nor of his wife. He only dreamed of places now and of lions on the beach. They played like young cats in the dusk and he loved them as he loved the boy”).

Todavia, após a insistência do jovem amigo Manolin, o Velho resolve tentar pescar novamente na manhã no 85º dia com sua pequena canoa. Após muita luta e resistência física e mental, o Velho consegue pescar um peixe enorme (cinco metros e 700kg). Lembrando que a amizade entre o Velho e Manolin é linda e eu amei o jeito que Manolin cuida do seu amigo (“Keep the blanket around you” the boy said. “You’ll not fish without eating while I’m alive”).

Maior parte da história no mostra a luta do Velho contra o peixe, que o fez ir cada vez mais para o alto mar. No alto mar, O Velho sofre com o sol cegante e abre feridas no corpo, em especial nas mãos que acabam parecendo “garras”. Durante esse período, o Velho faz reflexões sobre a vida e a relação do homem com a natureza.

É interessante como sentimos a limitação física do Velho durante a pescaria e ainda como ele considera os peixes como “irmãos” e que ele não gosta de desrespeitar a natureza, mas que é o dever dele para com a comunidade dar esse alimento.

Agora vou dar spoiler: uma das partes mais angustiantes do livro é quando o Velho sofre ataques de tubarão após conseguir pescar o peixe grande. Ele sofre ao olhar pro peixe mutilado e acaba voltando para a sua comunidade apenas com os espinhos de um peixe enorme. Manolin chora muito ao encontrar seu amigo cansado e machucado, em especial na mão. Todos os pescadores seguem respeitando o Velho, em especial após a pesca desse peixe de tamanho descomunal.

Muitas pessoas acreditam que esse percurso do Velho é uma metáfora. “No plano existencial, O velho e o mar seria uma metáfora de uma vida de riscos, de investimentos que, no final, resultam em solidão ao lado de uma carcaça sem valor. Para o tradutor e doutor em linguística pela USP Caetano Galindo, trata-se de um texto no qual “cabe de fato um mar, um sem fim de possibilidades e sentimentos em torno de uma história simples, direta”. O próprio Hemingway, no entanto, negava essas interpretações alegóricas. “O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira”, escreveu em uma carta ao crítico Bernard Berenson”².

Muitos identificam muitos traços da vida de Hemingway no livro, que morou em Cuba e fazia pescas na região. De todo modo, é uma história emocionante e genial. Mais que recomendo para todos!