Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

Book Review: “A vida não é justa” de Andréa Pacha

“A vida não é justa” é um livro escrito por Andréa Pacha, juíza que atua na Vara de Família, e que nos conta um pouco de histórias incríveis relacionadas aos casos que apareceram no decorrer de seus 15 anos de carreira.

Andréa separou histórias únicas para dividir conosco nessa leitura, como reconhecimento de paternidade (em uma perspectiva inusitada), casais idosos que se divorciam, casais novos se separando e até mesmo casamentos. Caso queira comprar o livro: https://amzn.to/2DOJ8dy

Essas histórias são curiosas, porque são datadas da transição de uma sociedade que vivia em uma ditadura militar para uma democracia com a Constituição de 1988. Logo, existem muitas questões conservadoras que ganharam um novo olhar após essa nova Constituição. Separei dois exemplos para dividir com vocês aqui.

O primeiro exemplo é a separação litigiosa com declaração da culpa da mulher: “Alguns anos antes, quem fosse considerada culpada perderia a guarda dos filhos, não receberia pensão e deixaria de usar o sobrenome do marido”. Outro seria uma tática que era usada no reconhecimento de paternidade: “Para se defenderem, nas ações de investigação de paternidade, alguns homens levavam amigos para depor e todos afirmavam que se relacionaram sexualmente com a mãe da criança. Na impossibilidade de se determinar naquelas condições quem era o pai, o pedido era rejeitado”.

Outro ponto interessante é a rapidez para sentenciar um divórcio, que é também, em partes, um reflexo da nossa sociedade líquida, como dizia Bauman. Muitas vezes, tal rapidez não está de acordo com os próprios sentimentos humanos após o divórcio, pois alguns casais, após estarem divorciados, demoram para “cair a ficha” de que tudo mudou após anos e anos de relacionamento.

"Se, por um lado, isso significou celeridade e desburocratização, por outro, no dia a dia, o que se percebe é que a rapidez e a superficialidade com que as pessoas se unem e se separam indicam o quanto a contemporaneidade tem impedido a criação de vínculos consistentes e o comprometimento afetivo, inclusive para a experiência de luto daquele que ainda ama e precisa do tempo para digerir o fim do amor".

Andréa também nos mostra alguns casos curiosos envolvendo pessoas que entravam com uma ação judicial de temas que deveriam ser resolvidos pelo próprio casal, como quem seria o responsável por levar o filho à escola.

Fiquei bastante triste com dois contos: o “Mas eu amo aquele homem…” e “Gabriel do Alemão”. O primeiro conta um pouco sobre uma vítima de violência doméstica que não conseguia sair desse ciclo de violência. Andréa aproveita para nos contar um pouco sobre como era a aplicação da lei antes da Lei Maria da Penha (o que ainda, infelizmente, ocorre em muitas delegacias!):

"Ainda não havia a Lei Maria da Penha. Algumas mulheres eram humilhadas quando recebiam o julgamento dos seus processos, que terminavam com a condenação dos agressores ao pagamento de cestas básicas. Outras, ainda nas delegacias, eram desencorajadas a fazer registro da ocorrência".

Já o caso “Gabriel do Alemão” nos conta um pouco sobre um rapaz chamado Gabriel, que foi abandonado pela mãe e não tinha documentação. Ele foi encontrado na rua e levado para um abrigo pelo Serviço Social, onde foi registrado apenas com o nome. Diferentemente da maioria das pessoas nessa situação de vulnerabilidade, Gabriel tinha um emprego formal e uma casa para morar, mas tinha um déficit de cidadania, pois não tinha uma data de nascimento escrita no documento.

Eu nunca pensei que existiria essa possibilidade de alguém sequer ter uma data de nascimento. Muito triste pensar nos efeitos da nossa desigualdade social e como isso afeta as populações mais vulneráveis em várias frentes.

Por fim, esse livro abre a nossa mente para as diversas situações que um juiz acaba encontrando durante a sua carreira. É uma experiência incrível abrir a mente com essas histórias contadas de maneira leve e emocionante pela Andréa. Recomendo muito essa leitura!

Book Review: “Gente Pobre” de Fiódor Dostoiévski

Book Review: “Gente Pobre” de Fiódor Dostoiévski

“E depois a gente rica não gosta de ouvir os pobres se queixando de sua má sorte – dizem que incomodam, que são impertinentes! A pobreza é sempre impertinente mesmo – talvez porque seus gemidos famintos lhes perturbem o sono!”

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente Pobre – Tradução de Fátima Bianchi. Editora 34. São Paulo, 2020. Página 138.

Queria começar a resenha dizendo que esse é um livro que te faz repensar todos os seus privilégios e que faz com que você sinta a dor e a pobreza dos personagens. Sem contar também a conexão super interessante que Dostoiévski faz com outras obras russas.

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“Gente Pobre” foi o livro de estreia de Dostoiévski e já chega com uma proposta bastante diferente do que havia na época. Ele, sempre firme em suas convicções, colocou pessoas pobres como foco do enredo, permitindo que a gente sinta a injustiça social na fala simples de seus personagens principais (Makar Diévuchkin e Varvara Dobrosiólova).

A narrativa é feita no formato de cartas trocadas entre os dois personagens nomeados acima. Ambos são pobres e estão à beira da miséria total (não ter o que comer e onde dormir). Varvara é uma moça jovem e órfã, que possui Makar, um senhor de 50 anos, como único parente mais próximo. O primeiro objetivo nessa troca de cartas é melhorar a escrita de Makar, que estava precária e precisava treinar.

Estão descritas nessas cartas as necessidades e um pouco da rotina dos personagens. Makar dava o pouco de dinheiro que conseguia para Varvara, por meio de presentes simples (como balas), com o objetivo de diminuir o sofrimento da menina que vive na pobreza. Mas ele acabava sem ter roupas para ir trabalhar e vivia sendo chacota de seus colegas de trabalho.

Uma parte que me afetou muito foi a descrição das chacotas que Makar vivia, e que muito pareciam as sofridas pelo protagonista de “O Capote” de Gógol até pelo fato de ambos os personagens serem copiadores de uma repartição pública:
"Para que serve isso? Será que por isso algum leitor vai me comprar um capote? (...) Às vezes você se esconde, se esconde, oculta-se naquilo que não domina, tem medopor vezes de mostrar o nariz seja onde for, porque teme os mexericos, porque, de tudo o que há no mundo, de tudo que lhe armam uma pasquinada, e eis que toda a sua vida civil e familiar anda pela literatura, tudo impresso, lido, ridicularizado, bisbilhotado! (...) pode-se reconhecer um dos nossos só pelo andar" (p. 95).

Outras descrições que me chamam atenção são do local onde vivem, das mortes por doenças e como as crianças reagem frente à pobreza, como, por exemplo, em “Como não gosto Várienka, minha filha, quando vejo uma criança pensativa; é uma coisa desagradável de ver! No chão, ao lado dela, tem uma boneca de pano – mas ela não está brincando” (p. 72).

Makar chega a procurar um agiota para conseguir dinheiro e pagar sua dívidas e alimento. Mas, outra cena que me marcou muito foi quando ele estava prestes a levar um esporro de seu superior, mas o botão de sua camisa sai. O superior começa a notar as roupas de Makar e, em um ato de nobreza, oferece uma boa quantia de dinheiro para ajudar o pobre homem. Makar diz que nunca se sentiu tão especial e digno durante toda a sua vida:

"juro-lhe que os cem rublos não me são tão caros quanto o fato de Sua Excelência em pessoa ter se dignado a apertar-me a mão indigna, a mim, um pulha, um bêbado! (...) Com esse gesto, ressuscitou o meu espírito, tornou minha vida mais doce para sempre" (p.147).

Já Várienka, apesar de toda a dificuldade, tenta se mostrar positiva (“lembre-se que a pobreza não é defeito. Então por que se desesperar: isso tudo é passageiro! Se Deus quiser” p. 125). Mas, como o destino é cruel, a sua única saída é partir para um casamento infeliz com um senhor de classe social superior.

Book Review: “O Duelo” de A. P. Tcherkhov

Book Review: “O Duelo” de A. P. Tcherkhov

“Sou um homem fútil, medíocre, degradado! O ar que respiro, esse vinho, o amor, em uma palavra, a vida, eu a comprei até agora com mentiras, ócio e covardia. Até agora fiquei enganando os outros e a mim mesmo, sofria com isso e os meus sofrimentos eram baratos e vulgares. Eu me curvo timidamente diante do ódio de Von Koren porque de tempos em tempos eu mesmo me odeio e me desprezo”.

TCHEKHOV, A. P. O Duelo – Tradução de Marina Tenório. Editora 34. São Paulo, 2018.

Fiquei bastante curiosa para ler “O Duelo” de A. P. Tcherkhov, pelo fato dos duelos aparecerem tanto nas obras russas. No posfácio dessa edição da Editora 34 explica que os duelos não são uma tradição medieval como é observado na Europa, mas que foi introduzido pelos nobres russos muito tardiamente (historicamente).

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A obra nos conta um pouco sobre Laiévski, um homem supérfluo e que acredito ser uma espécie de Vronski de Anna Karênina. Laiévski é um homem supérfluo (caso você tenha interesse em saber mais sobre esse “personagem” da literatura, sugiro que leia o post sobre “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev) que vive com Nadiéjda Fiódorovna, uma mulher casada de classe social inferior.

Eu identifiquei muito de Anna Karênina em Nadiéjda Fiódorovna, em especial pelo sofrimento e exclusão que ela passa. Sem contar também o descaso que Laiévski possui frente a ela (assim como Vronski teve com Anna) e a viagem para um local mais quente (como Anna e Vronski fizeram para a Itália). Outra figura (muito parecida com a Dolly de Anna Karênina) é a Mária Konstantínovna, a única amiga de Nadiéjda Fiódorovna, e que possui uma grande dualidade, no sentido de gostar muito da amiga, mas também ter vários preconceitos em face dela.

O duelo ocorre quando Laiévski se desentende com Von Koren, um cientista que quer mudar radicalmente a sociedade russa – o que entra em conflito com a qualidade de “homem supérfluo” de Laiévski. Um ponto interessante é como os personagens refletem o quanto é arcaico o duelo, mas, ao mesmo tempo, não desistem por “uma questão de honra”.

Recomendo a leitura desse livro para quem já está familiarizado com a literatura russa. Acho que essa obra é mais enriquecedora após leituras anteriores.

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

“Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor”

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. As vozes de Tchernóbil – Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.

Eu sempre me interessei bastante em livros no formato de relatos. Todo mundo me indicava começar com os livros da Svetlana Aleksiévitch e, dentre todos os publicados, me interessei mais por “Vozes de Tchernóbil” (até mesmo por ter assistido a série da HBO que, por sinal, foi muito bem recebida pela crítica).

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A escrita do livro é incrível e eu me senti como se estivesse ao lado da escritora entrevistando os sobreviventes. Ela descreve a ordem dos fatos narrados e ainda as sensações/reações dos entrevistados com maestria. Dá para sentir a dor dos acontecimentos, mas também como as pessoas se sentiam com a conjuntura política da época.

Muitos dos entrevistados possuem um histórico de guerra e foram preparados para isso. Depois de anos de traumas da guerra e acreditando que a natureza (sempre aliada) nunca os faria mal, fez com que o crime de Tchernóbil não fosse tão facilmente compreendido por eles. Sequer os especialistas estavam preparados, pois eles tinham sido educados para outro tipo de situação, na medida em que ninguém sequer imaginaria um desastre nessas proporções.

Outro ponto interessante dos entrevistados é como eles ainda se identificam com a União Soviética. É muito simplista pensar que eles não “acompanharam a mudança” e ser esse o único motivo para tal identificação. Precisamos entender que essas pessoas foram educadas a acreditar, durante a vida toda, que eram comunistas soviéticos. Não é uma ideia fácil de ser desconstruída e achei esse ponto um dos mais interessantes do livro.

Gostei bastante também da abordagem que a escritora teve na questão ambiental, que fica evidente na entrevista de pessoas engajadas na causa e até mesmo a percepção de idosos que habitam por lá. A parte da morte dos animais domésticos me deixou muito triste, em especial, a morte dos cães. Sim, eu fiquei triste por ser o meu animal predileto, mas também por eles terem ficado em frente das casas esperando o retorno de seus donos.

Eu, Anna, acredito que devemos pensar e falar mais sobre Tchernóbil. Mas não da maneira que falamos nos últimos tempos, até mesmo limitando a existência das pessoas de “pessoa de Tchernóbil” e com vises inconscientes discriminatórios (como muitos relataram no livro). Vamos pensar no modelo de sociedade que queremos para o futuro: seria esse modelo compatível com geração de energia nuclear? Como diminuir o nosso impacto ambiental e corrigir excessos? Fica os questionamentos!

Por fim, só gostaria de lembrar que o livro faz descrições tristes sobre deformidades e mortes de pessoas guerreiras que enfrentaram o inimigo invisível, também conhecido como radioatividade. Então, caso queira ler, lembre deste ponto.

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

“Supérfluo, supérfluo… Encontrei uma palavra excelente. Quanto mais profundamente me perscruto, quanto mais atentamente examino a minha vida pregressa, mais me convenço da estrita exatidão desse termo. Supérfluo – é isso.

TURGUÊNIEV, Ivan. Diário de um homem supérfluo / tradução, posfácio e notas de Samuel Junqueira. São Paulo: Editora 34, 2019. p. 17

Essa obra é um clássico na história da literatura e teve um papel muito importante, em especial, na literatura russa. Caso queria comprar o livro, aqui está um link de compra: https://amzn.to/2Df411e

É a primeira vez em que temos contato com o psicológico do “homem supérfluo”, uma figura que já era presente na literatura russa, mas que ganhou uma maior complexidade na obra de Turguêniev.

O livro nos mostra um pouco o diário de Tchulkatúrin, um homem que está em seu leito de morte e que relembra o seu amor por Liza, filha de um proprietário de terras, bem como expressa a sua frustração com a vida. Há grande ênfase nesse amor por Liza, pois é o único acontecimento relevante que ocorre na vida de Tchulkatúrin, por mais frustante que essa experiência tenha sido (Liza o desprezava).

Essa frustração é uma característica marcante da figura do “homem supérfluo” da literatura russa. Mas, afinal, quem eram esses homens supérfluos? De acordo com Samuel Junqueira, eles são “jovens de origem nobre, dotados de grande capacidade intelectual e dos mais elevados princípios morais, mas também incapacitados para a ação, para a luta”.

É importante ressaltar que ocorreram grandes acontecimentos na primeira metade dos anos 1800 na Rússia, como omo a Revolta Dezembrista (1825) e a emancipação dos servos (1861). Os referidos eventos criaram um sentimento de união e busca por mudanças por parte da sociedade russa, em especial na juventude russa.

Todavia, por mais que os jovens estivessem com esse espírito revolucionário, eles não tinham como colocar seus ideais em ação, pois o regime do tzar Nicolau I tinha como característica a repressão e a censura. Logo, diante da impossibilidade de ação em um regime opressor e anacrônico, surge o Homem Supérlfuo.

Outro ponto interessante é que a obra de Turguêniev foi quase que inteiramente modificada pela censura em sua publicação. Apenas em 1856 que a obra é reestruturada com os trechos originais.

Na obra, Turguêniev cria tamanha profundidade para o personagem que acaba criando uma infância para ele. Logo, neste momento, surge a “criança supérflua” na literatura.

A leitura flui super bem e o narrador, apesar de sua situação trágica no leito de morte, se torna engraçado. Muitas vezes me pareceu bastante com “Memórias póstumas de Brás Cubas” do Machado de Assis. Eu recomendo bastante a leitura desse clássico e espero que esse apanhado histórico e análise literária de Samuel Junqueira enriqueça a leitura de todos!

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

“A luz das estrelas o socorreu. A pura beleza das dunas do deserto testemunhou a seu favor. Anjos de todas as denominações o apoiaram em silêncio”

NAKHJAVANI, Bahiyyih. O Alforje – Tradução de Rubens Figueiredo. 2ª Edição. Editora Dublinense. Porto Alegre, 2019.

“O Alforje” foi o meu primeiro contato com as obras de Nakhajavani e estou encantada. O enredo e a forma de escrita são incríveis e deixam a leitura fluida e interessante do começo ao fim. Caso queira comprar: https://amzn.to/3kynNFT

A escrita é doce e profunda. É um livro que trata sobre diferentes tipos de fé e personagens que se encontram e unem o destino por conta de um alforje (que eu considerei como mágico). Uma dificuldade que encontrei na leitura foi o choque cultural, pois não estava acostumada com os termos e a violência com que as mulheres são submetidas na obra.

Eu considerei como uma obra violenta, mas, ao mesmo tempo, envolvente e leve. A doçura e profundidade que Nakhajavani escreve é única e nos faz apaixonar.

A obra basicamente narra o assalto que há na caravana de uma noiva e o encontro com um corpo morto caído dos céus, todavia, na perspectiva de vários personagens que presenciam o evento. Então, há capítulos destinados à noiva, aos assaltantes, sacerdote, escrava, etc. Todos esses personagens se interligam não apenas por conta do acontecimento, mas também por conta de um misterioso alforje.

Cada personagem tem a sua própria bagagem cultural, um passado e uma religiosidade específica. Acho que esse ponto é o mais enriquecedor de toda a leitura. Achei também que o alforje era mágico e passava uma mensagem diferente para cada um que o pegava.

Mesmo tratando de um mesmo evento (e com pequenos flashbacks do passado de cada personagem) não achei repetitivo, mas super interessante. Indico fortemente para todos em busca de uma escrita linda (que “amacia a nossa mente” ) e uma cultura diferente.

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

“He was too simple to wonder when he had attained humility. But he knew he had attained it and he knew it was not disgraceful and it carried no loss of true pride”.

HEMINGWAY, Ernest. Old Man and The Sea.

Esse é um dos meus livros prediletos da vida. Eu nunca chorei tanto ao terminar de ler um livro. Não chorei por tristeza, mas de emoção por acabar de ler uma obra tão linda. Caso queira comprar o livro, aqui está o link para compra: O velho e o mar

Durante a leitura fiquei com raiva do Santiago, mas também torci por ele. Foi um livro cheio de emoção. Rumores de que Hemingway enviou, junto com uma cópia original de “O velho e o mar”, um bilhete pro seu editor dizendo “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda” e isso fez muito sentido para mim, pois sei que são poucos os livros nesse nível que lerei na minha vida.¹.

A obra nos conta um pouco da história de Santiago, um pescador cubano idoso, que se encontra em uma maré de azar e ficou 84 dias sem conseguir um pescar um peixe (“Velho“). Ele sonhava com leões, que era uma memória feliz da sua infância e não mais com mulheres, brigas e peixes grandes (“He no longer dreamed of storms, nor women, nor of great occurrences, nor of great fish, nor fights, nor contests of strength, nor of his wife. He only dreamed of places now and of lions on the beach. They played like young cats in the dusk and he loved them as he loved the boy”).

Todavia, após a insistência do jovem amigo Manolin, o Velho resolve tentar pescar novamente na manhã no 85º dia com sua pequena canoa. Após muita luta e resistência física e mental, o Velho consegue pescar um peixe enorme (cinco metros e 700kg). Lembrando que a amizade entre o Velho e Manolin é linda e eu amei o jeito que Manolin cuida do seu amigo (“Keep the blanket around you” the boy said. “You’ll not fish without eating while I’m alive”).

Maior parte da história no mostra a luta do Velho contra o peixe, que o fez ir cada vez mais para o alto mar. No alto mar, O Velho sofre com o sol cegante e abre feridas no corpo, em especial nas mãos que acabam parecendo “garras”. Durante esse período, o Velho faz reflexões sobre a vida e a relação do homem com a natureza.

É interessante como sentimos a limitação física do Velho durante a pescaria e ainda como ele considera os peixes como “irmãos” e que ele não gosta de desrespeitar a natureza, mas que é o dever dele para com a comunidade dar esse alimento.

Agora vou dar spoiler: uma das partes mais angustiantes do livro é quando o Velho sofre ataques de tubarão após conseguir pescar o peixe grande. Ele sofre ao olhar pro peixe mutilado e acaba voltando para a sua comunidade apenas com os espinhos de um peixe enorme. Manolin chora muito ao encontrar seu amigo cansado e machucado, em especial na mão. Todos os pescadores seguem respeitando o Velho, em especial após a pesca desse peixe de tamanho descomunal.

Muitas pessoas acreditam que esse percurso do Velho é uma metáfora. “No plano existencial, O velho e o mar seria uma metáfora de uma vida de riscos, de investimentos que, no final, resultam em solidão ao lado de uma carcaça sem valor. Para o tradutor e doutor em linguística pela USP Caetano Galindo, trata-se de um texto no qual “cabe de fato um mar, um sem fim de possibilidades e sentimentos em torno de uma história simples, direta”. O próprio Hemingway, no entanto, negava essas interpretações alegóricas. “O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira”, escreveu em uma carta ao crítico Bernard Berenson”².

Muitos identificam muitos traços da vida de Hemingway no livro, que morou em Cuba e fazia pescas na região. De todo modo, é uma história emocionante e genial. Mais que recomendo para todos!

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

“Cobri o conflito na Líbia em Sirte, no front contra o Estado Islâmico. Fiz coberturas da guerra na Síria, no Iraque e no Afeganistão. Nunca tive guarda-costas. Estava em São Paulo, e precisava de segurança”

CAMPOS MELLO, Patrícia. A máquina do ódio. Editora Schwarcz. São Paulo, 2020.

Para quem não conhece, a Patrícia Campos Mello é uma jornalista brasileira colunista da Folha de S. Paulo e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, em especial por seu trabalho como jornalista correspondente em áreas de conflito como Síria e Serra Leoa.

Patrícia explora alguns pontos muito interessantes em “A máquina do ódio” como o linchamento que sofreu pelo Presidente da República e seus familiares, o impacto das mídias sociais nas eleições presidenciais, as novas formas de censura aos jornalistas, a ascensão de populistas no mundo e como o Presidente se utiliza de técnicas do Viktor Orbán, líder da Hungria. O livro termina com uma reflexão muito boa para o jornalismo: “será que uma pandemia pode salvar o jornalismo?”

Caso queira comprar o livro: A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital

Primeiramente, é interessante pensarmos que, de acordo com dados levantados no livro, 60% dos brasileiros usam o WhatsApp e muitos se informam pelo aplicativo. Tendo isso em vista, a nova versão de totalitarismo, a fim de alienar a população e criar uma ilusão de apoio ao líder totalitário, enche as redes sociais com a versão dos fatos que se quer emplacar. Tal técnica é muito forte, pois é (muitas vezes) o primeiro contato que o cidadão terá com a notícia e essa primeira impressão é muito difícil de ser desfeita.

Achei interessante o termo “tecnopopulista” para os líderes populistas que se utilizam das redes sociais de maneira abusiva, isto é, por meio do astroturfing. É igualmente curioso o fato das pessoas confiarem mais nas teorias conspiratórias do que em especialistas.

A jornalista também conta detalhes do caso dos disparos em massa de desinformação (vulgo “fake news” e que é uma atitude proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral desde 2019). Ela informa que existem empresas que vendem o cadastro com milhões de números de celular atrelados a CPFs, títulos de eleitor e o perfil social e econômico das pessoas (a maioria deles eram idosos). Nesse ponto, é extremamente necessário pensarmos como devemos cuidar de um dos nossos bens mais preciosos: nossos dados.

Ao denunciar o esquema descrito acima, Patrícia sofreu diversos ataques por fanáticos do Presidente. Ela evidencia o machismo que existe, pois ninguém criticaria um jornalista homem da mesma maneira que ela foi criticada e julgada. Um homem a difamou em uma CPMI por ele ter levado um belo pé na bunda (mulheres, quem mais já viu uma cena parecida?).

Nesse ponto, ela trata do linchamento virtual, que faz com que muitos jornalistas se silenciem com medo das violentas represálias.

Outro assunto é como o governo brasileiro é um governo da “pós-verdade”, que valoriza versões em detrimento de fatos. Essa parte me lembrou muito do livro “O povo contra a democracia” do Yascha Mounk, pois o lider populista antiliberal precisa ser a fonte da verdade absoluta para o seu povo. O jornalismo e a mídia tradicional atrapalha esse objetivo ao questionar as ações do líder populista. Assim como Maduro, o Presidente brasileiro toma decisões contra os jornalistas e mantém uma postura violenta frente à eles.

Por fim, ressalto que o jornalismo, assim como a advocacia, é uma profissão de países democráticos. O direito à informação é basilar do Estado Democrático de Direito e precisamos defendê-lo com unhas e dentes. Precisamos criar um senso crítico das ações feitas pelos líderes populistas para não cairmos em uma cilada como esse novo formato de totalitarismo.

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Essa foi a escolha para o mês de julho/2020 do leitura no Clube de Leitura @LivrosdeLei e foi um sucesso! A história é emocionante e nos conta um pouco da vida de Kambili, uma menina nigeriana que vive em um mundo com fanatismo religioso, autoridade parental e o colonialismo. Caso queira comprar o livro: Hibisco roxo

Esse foi o meu primeiro contato com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie e eu fiquei bastante impressionada com o quanto a leitura de um tema tão pesado se torna leve. O livro é super fluido e é possível acabar a leitura em poucos dias.

A Kambili é uma garota adolescente que vive com o seu pai (Papa), mãe (Mama) e irmão (Jaja). A família de Kambili é bastante rica e seu pai é um famoso líder local e dono de um jornal. A garota sofre bastante com o autoritarismo e o fanatismo religioso de seu pai, que acaba agredindo fisicamente tanto ela quanto o seu irmão e a sua mãe.

A história muda quando Kambili e Jaja vão passar uns dias na casa da tia Ifeoma, irmã do Papa. Ifeoma mora em uma cidade universitária e em uma situação de pobreza diferente da vida de luxo que Kambili e Jaja vivem com seus pais. Logo, Kambili aprende outras formas de viver e convive com seus primos e o seu avô Papa-Nnukwu.

Durante esse período na casa da tia Ifeoma, Kambili mantém mais contato com o seu avô (que é visto como um “pagão” por seu pai) e com outros personagens, como o Padre Amadi – o padre de uma Igreja próxima a casa de Ifeoma. O Padre Amadi se preocupa com Kambili e a ajuda a “se soltar”, pois a menina tinha um comportamento estranho devido aos traumas que Papa introduziu em sua criação.

Eu espero ter feito você ficar com vontade de ler até aqui! Porque não quero me estender e acabar contando o fim da história, que é brilhante. O fim é totalmente inesperado e nos mostra uma nova faceta dos personagens. Ou melhor, “os humilhados sendo exaltados”. Indico esse livro para todo mundo!

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Esses dois contos são incríveis e são os meus prediletos de Nikolai Gógol. Espero que vocês gostem e eu li os dois contos em um livro só, no caso esse: O Capote

O Nikolai Gógol retrata super bem o período do czar Nicolau I e a sociedade de São Petersburgo. Outro ponto interessante e uma figura muito comum das suas obras é o burocrata, que trabalha como oficial em altos cargos e passam por situações “humilhantes” ou que faz com que ele fique ofendido com ela. Tais situações conversam com o absurdo e trazem eventos trágicos e cômicos para a vida dos personagens.

“O Capote” (1842) nos conta a história de Akáki Akákievitch, um burocrata de cargo baixo. Ele vive na miséria juntando dinheiro em toda oportunidade que existe, mas passa por um sufoco quando o seu capote rasga. O capote sai caro, mas fica perfeito e chama a atenção de todo mundo. Akáki Akákievitch, que antes não tinha amigos, começa a ser popular por conta de sua roupa nova e é convidado para uma festa pelo chefe do departamento. Mas não esperava ele que ocorreria nessa festa uma fatalidade que faria a sua vida mudar para sempre.

Um ponto interessante é que o personagem sequer conseguia terminar uma frase direito e isso é refletido no próprio nome do personagem, que possui elementos de gagueira. “Ao analisar o conto, Paulo Bezerra destaca a importância do nome de Akáki para a caracterização da essência do personagem. O tradutor explica que sua repetição sonora “se constitui num exercício de gagueira (…) que usa uma linguagem quase desprovida de articulação, como se o homem ainda não tivesse criado uma linguagem estruturada”. Acrescenta-se a isso o seu sobrenome Bachmátchkin, derivado de báchmak, que significa sapato, e temos a imagem de um ofendido feito para ser pisado”¹.

O próprio Dostoiévski reconhece que “todos nós saímos do capote de Gógol”, considerando que a obra ultrapassa gerações e moldou uma onda de escritores russos.

Já o conto “O Retrato” (1835) nos conta um pouco da vida (e sonhos) de um pintor iniciante chamado Tchartkov, que adquire um retrato que o leva à loucura. Tchartkov vive com diversas dívidas e pouco reconhecimento até que encontrou dinheiro em sua casa, coincidentemente perto do quadro de um homem oriental, cujos olhos pareciam olhar fixamente para Tchartkov.

O dinheiro aparecia o tempo inteiro perto do quadro e, logo menos, Tchartkov sai da pobreza e passa a ser um pintor rico e famoso na sociedade. Mas ele percebe que é tudo artificial e que ninguém liga para o seu talento, o que o leva à loucura e inveja de outros pintores melhores. Na segunda parte do livro, descobrimos que o quadro é a pintura de um agiota, que realmente existiu, e que tinha um ar sombrio e amaldiçoava a todos que usavam o seu dinheiro emprestado.

Um fato interessante é que Nikolai Gógol morreu como Tchartkov, “mergulhado em profundos arrependimentos e diagnosticado pelos médicos como insano. Como revela Vladimir Nabokov em seu livro Nicolai Gógol: uma biografia”².