Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

“Convenhamos, a fantasia não conhece leis, e além do mais efetivamente ocorrem no mundo muitos acontecimentos perfeitamente inexplicáveis”

GOGOL, Nikolai Vassiliévitch, 1809-1952. O nariz /e/ Diário de um louco; Tradução Roberto Gomes – Porto Alegre: LP&M, 2011.

O livro “O Nariz” de Nikolai Gogol é um clássico da literatura russa super curtinho e dá para ler facilmente em 1 dia.

Para mim, a melhor parte de todos os contos de Gogol é a mistura entre a vida comum e o absurdo, e essa história é minha predileta dele justamente por conta desse elemento. A obra nos conta a história do Major Kovaliov, um sujeito que acorda sem o seu nariz. Caso queira comprar o livro: O nariz: 201

A situação, em si, já é bastante bizarra. Mas piora bastante quando vemos a naturalidade que as outras pessoas tratam esse assunto. Ninguém entende como se fosse algo mágico, mas que “poderia acontecer”. O conto é dividido em duas partes.

Na primeira parte do conto, acompanhamos o barbeiro Ivan Iákovlevitch que encontra um nariz no meio do pão que comia pela manhã. O personagem fica com medo de ser preso pelas autoridades e resolve esconder o nariz. Nesse momento, pensei que ele era um assassino ou algo do tipo.

A segunda parte trata do momento em que o Major Kovaliov descobre que está sem o seu nariz. Desesperado, ele recorre ao comandante da polícia e até à seção de anúncios de um jornal. No fim, a polícia aparece em sua casa com o nariz, e o desafio passa a ser como colocá-lo de volta no rosto de Kovaliov.

Essa história é bastante divertida e ótima para conhecer as obras de Gogol. Indico para todos que estejam abertos para o diferente e que buscam uma leitura divertida.

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Esses dois contos são incríveis e são os meus prediletos de Nikolai Gógol. Espero que vocês gostem e eu li os dois contos em um livro só, no caso esse: O Capote

O Nikolai Gógol retrata super bem o período do czar Nicolau I e a sociedade de São Petersburgo. Outro ponto interessante e uma figura muito comum das suas obras é o burocrata, que trabalha como oficial em altos cargos e passam por situações “humilhantes” ou que faz com que ele fique ofendido com ela. Tais situações conversam com o absurdo e trazem eventos trágicos e cômicos para a vida dos personagens.

“O Capote” (1842) nos conta a história de Akáki Akákievitch, um burocrata de cargo baixo. Ele vive na miséria juntando dinheiro em toda oportunidade que existe, mas passa por um sufoco quando o seu capote rasga. O capote sai caro, mas fica perfeito e chama a atenção de todo mundo. Akáki Akákievitch, que antes não tinha amigos, começa a ser popular por conta de sua roupa nova e é convidado para uma festa pelo chefe do departamento. Mas não esperava ele que ocorreria nessa festa uma fatalidade que faria a sua vida mudar para sempre.

Um ponto interessante é que o personagem sequer conseguia terminar uma frase direito e isso é refletido no próprio nome do personagem, que possui elementos de gagueira. “Ao analisar o conto, Paulo Bezerra destaca a importância do nome de Akáki para a caracterização da essência do personagem. O tradutor explica que sua repetição sonora “se constitui num exercício de gagueira (…) que usa uma linguagem quase desprovida de articulação, como se o homem ainda não tivesse criado uma linguagem estruturada”. Acrescenta-se a isso o seu sobrenome Bachmátchkin, derivado de báchmak, que significa sapato, e temos a imagem de um ofendido feito para ser pisado”¹.

O próprio Dostoiévski reconhece que “todos nós saímos do capote de Gógol”, considerando que a obra ultrapassa gerações e moldou uma onda de escritores russos.

Já o conto “O Retrato” (1835) nos conta um pouco da vida (e sonhos) de um pintor iniciante chamado Tchartkov, que adquire um retrato que o leva à loucura. Tchartkov vive com diversas dívidas e pouco reconhecimento até que encontrou dinheiro em sua casa, coincidentemente perto do quadro de um homem oriental, cujos olhos pareciam olhar fixamente para Tchartkov.

O dinheiro aparecia o tempo inteiro perto do quadro e, logo menos, Tchartkov sai da pobreza e passa a ser um pintor rico e famoso na sociedade. Mas ele percebe que é tudo artificial e que ninguém liga para o seu talento, o que o leva à loucura e inveja de outros pintores melhores. Na segunda parte do livro, descobrimos que o quadro é a pintura de um agiota, que realmente existiu, e que tinha um ar sombrio e amaldiçoava a todos que usavam o seu dinheiro emprestado.

Um fato interessante é que Nikolai Gógol morreu como Tchartkov, “mergulhado em profundos arrependimentos e diagnosticado pelos médicos como insano. Como revela Vladimir Nabokov em seu livro Nicolai Gógol: uma biografia”².
Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

“Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra -, nessa assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente das lembranças do passado”.

TOLSTÓI, Leon. “A Morte de Ivan Ilitch”. Página 66.

Esse livro foi o meu primeiro contato com a obra de Tolstói e fiquei apaixonada. “A Morte de Ivan Ilitch” foi publicado em 1886 e é considerado como uma das obras-primas da literatura. Se tiver interesse em comprar a obra: A morte de Ivan Ilitch

O livro trata muito da questão de viver a vida de acordo com valores dignos e não de “aparências” como Ilitch viveu. O modo de vida de Ilitch é uma crítica à superficialidade e hipocrisia da alta sociedade. Essa parte me lembrou bastante a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. “A história de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis” (página 12).

Importante dizer que o livro foi escrito após a conversão religiosa de Tolstói, que recebeu uma carta escrita à lápis de Tugueniev. Tugueniev, que estava sem forças para empunhar uma pena em seu leito de morte, escreve “por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo”. Logo após o recebimento da carta de seu amigo, Tolstói escreve “A Morte de Ivan Ilitch”, uma pequena novela e que reflete sobre a finitude humana.

O livro começa com a narração do velório de Ivan Ilitch, um juiz do Tribunal de Justiça bastante ambicioso e que morrera de uma doença no apêndice ou rim. No começo da história, nos é apresentado Piotr Ivanovich, que foi um colega de Ivan Ilitch na faculdade de Direito e no Tribunal. Ivanovich é considerado como o amigo mais próximo de Ilitch, mas não sente vontade alguma de ir até o velório. Não obstante, além de não ter vontade de ir ao velório ainda fica chateado por ter perdido a chance de jogar cartas com os colegas.

Ninguém realmente ligava para a morte de Ilitch, pois todos os convidados no velório estavam mais preocupados com quem assumirá o seu cargo no Tribunal de Justiça do que com o próprio morto.

O fato de Ivan Ilitch ter sido um burocrata a vida inteira ilustra bem a ideia de uma vida “automatizada” e sem grandes propósitos, estando estagnado naquele ambiente: “Essa arte de separar tão bem a vida oficial da vida real Ivan Ilitch possuía no mais alto grau e a prática associada ao talento natural tinha-o feito desenvolver esse talento a tal ponto de perfeição que muitas vezes, como os virtuoses, ele até se permitia, por um breve momento, mesclar suas relações humanas com as oficiais” (Página 27).

Ao decorrer da leitura, conhecemos Ivan Ilitch e toda a sua trajetória de vida. Após um acidente que faz com que ele machuque na região do rim, Ivan Ilitch acredita ter contraído uma doença no rim ou apêndice. Conforme o tempo passa, o seu ferimento se torna pior. O seu único prazer se tornou a companhia do filho, de apenas 14 anos, e de um criado seu, por entender que estes jamais lhe mentiriam.

É possível sentir a angústia e toda a mágoa que Ivan Ilitch sente no seu leito de morte. A parte que mais me chamou a atenção foi como “dói” ver a vida dos outros seguindo em frente enquanto a dele estava em seu fim. “Essa falsidade em volta e até mesmo dentro dele, mais do que qualquer outra coisa, envenenou os últimos dias de Ivan Ilitch” (Página 53).

Esse livro é incrível e faz reflexões bastante profundas sobre a brevidade e sentido da vida humana.