Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

“Yet it was in the world of smell that Flush mostly lived. Love was chiefly smell; form and colour were smell; music and architecture, law, politics and science were smell. To him religion itself was smell. To describe his simplest experience with the daily chop or biscuit is beyond our power”

Flush – Virginia Woolf
Esse livro estava na minha lista de leituras há muito tempo, mas um post da @apseudocrítica me incentivou a finalmente começar a ler. Eu o achei bastante diferente, mas que ainda foi possível sentir o toque suave e complexo da escrita de Woolf.

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A obra foi baseada nos estudos que Woolf fez sobre a trajetória de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), uma poeta inglesa do período vitoriano. Woolf acreditava que Browning deveria ter tido um impacto maior na vida dos leitores do que de fato teve. Não obstante, a vida de Browning, aparentemente, “ofuscou” suas obras, pois ela era uma mulher “polêmica para a sua época”, por ser abolicionista e auxiliar nas alterações das leis trabalhistas para crianças.

De todo modo, no começo da década de 1930, a vida de Browning (e, consequentemente, de seu cachorro Flush) estavam na mente de Virginia Woolf. A partir deste ponto, Woolf cria uma história em uma perspectiva bastante diferente: ela conta parte da história da vida de Browning (como escritora) sob o olhar de seu cachorro Flush.

Em várias partes do livro podemos notar as dificuldades que Browning tinha para escrever, assim como Woolf já havia retratado na obra “Um Teto Todo Seu”, mas o livro abarca questões bem mais complexas e contemporâneas da sua época de escrita.

O livro mostra de maneira muito clara o contexto sociopolítico do começo do século XIX, em especial na ascensão do fascismo e nazismo na Europa e a enorme desigualdade social entre ricos e pobres. De acordo com Anna Snaith, “em Flush, Woolf explora a política de rebaixamento e hierarquia ligando sistemas de valor ao longo das linhas literárias (ortodoxa e genérica), de classe, de gênero, de espécies e de raça”.

A leitura do livro é bastante leve e divertida. Flush é um personagem que analisa todos os acontecimentos, mas que não foge do nível de complexidade/individualidade que envolve os pensamentos do cão, muitas vezes mostrando um comportamento “descompensado” para os humanos, mas natural e instintivo para os animais.

Muitas vezes acabei interpretando o Flush como um senhor inglês bastante tradicional, mas acredito que este traço da personalidade dele é parte da crítica social de Woolf. Achei interessante como ela tenta nos mostrar uma desigualdade até em relação aos cães: “But the dogs of London, Flush soon discovered, are stricly divided into different classes. Some are chained dogs; some run wild. Some take their airings in carriages and drink from purple jars; others are unkempt and uncollared and pick up a living in the gutter”. Outro ponto interessante (e que realmente entendemos a crítica social) ocorre quando Flush é roubado, pois há uma descrição muito clara do bairro pobre e os contrastes com o que Flush estava acostumado.

Ainda, o livro nos mostra a viagem que Browning faz com Flush para a Itália (onde a questão do fascismo fica mais forte ainda) e o envelhecimento dos dois. E, por fim, acompanhamos o nascimento do bebê de Browning e o livro termina na morte tranquila de Flush.