Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

Book Review: “Na colônia penal” de Franz Kafka

“- Ele não sabe qual é a própria sentença ⁃ Não – repetiu o oficial. Parou por um momento, como se exigisse um fundamento mais específico da pergunta do viajante, e, então disse: – Seria inútil anunciá-la. Ele a sentirá na carne”

KAFKA, Franz (1883-1924). Na colônia penal / Franz Kafka; ilustrações de Lourenço Mutarelli; tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Editora Antofágica, 2020. Página 38.

Muitas vezes acho que grande parte da população mundial vive em um mundo kafkiano. Em um mundo em que estar informado é um privilégio e uma liberação, acredito que a grande massa desinformada se encontra como os grandes personagens de Kafka (essa é para você, Josef K.)

“O certo aqui é olhar para o buraco e deixar-se ser engolido pela escuridão. Nem todos têm o privilégio de enxergar no escuro” (p. 10)

Em mais uma obra, Kafka nos mostra um sistema de justiça desigual e totalitário. A obra nos conta a história de um pesquisador que vai visitar uma colônia penal localizada em uma ilha. Essa colônia não se submetia à legislação de outros países e era anacrônica. Tal anacronismo ocorre pelo fato de todos os outros países adotarem os direitos humanos e na ilha esses direitos básicos não existirem.

Nessa colônia penal, os condenados eram punidos fisicamente por uma máquina mortífera feita para esse propósito. Esse sistema é o mesmo utilizado no mundo no século XVIII, também conhecido como “suplício” é muito bem explorado em “Vigiar e Punir” do Foucault.

Outro traço desse sistema de suplício era que antigamente as pessoas se reuniam para ver as execuções e torturas ocorrendo. Tal prática ocorria na colônia, mas a população local não concordava mais (“como a execução era diferente em tempos passados! Um dia antes do evento, o vale inteiro já ficava cheio de gente, todo vinham apenas para assistir” p. 73).

“Não havia dúvida quanto à injustiça do processo e à desumanização da execução” (p. 65)

Nesse sistema, altamente militarizado, o condenado não sabia ler as leis e sequer sabia o motivo de sua condenação (“o oficial falava francês, e certamente nem o soldado, tampouco o condenado, compreendiam a língua” p. 26).

Outros pontos, que mostram o quanto totalitário era esse sistema, são os seguintes: (i) o comandante concentrava todas as funções para si mesmo (“então ele concentrava todas as funções em si? Era soldado, juiz, construtor, químico, projetista?” p. 35); e (ii) não há direito de defesa (“ele não teve a oportunidade de se defender – comentou o oficial” p. 39)

Claramente a colônia penal não estava de acordo com os direitos humanos, pois toda a penitência era um castigo físico feito no condenado. Esse castigo era feito por uma máquina, cujo objetivo era torturar o condenado, mas que foi considerada pelo pesquisador como uma máquina de matar.

Como um sistema totalitário, também podemos observar que a população se encontrava em situação de extrema pobreza enquanto o governo era rico (“pouco das outras casas da colônia, todas muito desgastadas, exceto pelas construções do palácio do comando” p. 131).

Esse livro é curto e bastante importante. Nos mostra temas importantes como totalitarismo, a falta de direitos humanos e a banalidade do mal. Indico a leitura para todos! Uma ótima reflexão.

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