Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

Book Review: “As vozes de Tchernóbil” de Svetlana Aleksiévitch

“Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor”

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. As vozes de Tchernóbil – Tradução de Sonia Branco. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.

Eu sempre me interessei bastante em livros no formato de relatos. Todo mundo me indicava começar com os livros da Svetlana Aleksiévitch e, dentre todos os publicados, me interessei mais por “Vozes de Tchernóbil” (até mesmo por ter assistido a série da HBO que, por sinal, foi muito bem recebida pela crítica).

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A escrita do livro é incrível e eu me senti como se estivesse ao lado da escritora entrevistando os sobreviventes. Ela descreve a ordem dos fatos narrados e ainda as sensações/reações dos entrevistados com maestria. Dá para sentir a dor dos acontecimentos, mas também como as pessoas se sentiam com a conjuntura política da época.

Muitos dos entrevistados possuem um histórico de guerra e foram preparados para isso. Depois de anos de traumas da guerra e acreditando que a natureza (sempre aliada) nunca os faria mal, fez com que o crime de Tchernóbil não fosse tão facilmente compreendido por eles. Sequer os especialistas estavam preparados, pois eles tinham sido educados para outro tipo de situação, na medida em que ninguém sequer imaginaria um desastre nessas proporções.

Outro ponto interessante dos entrevistados é como eles ainda se identificam com a União Soviética. É muito simplista pensar que eles não “acompanharam a mudança” e ser esse o único motivo para tal identificação. Precisamos entender que essas pessoas foram educadas a acreditar, durante a vida toda, que eram comunistas soviéticos. Não é uma ideia fácil de ser desconstruída e achei esse ponto um dos mais interessantes do livro.

Gostei bastante também da abordagem que a escritora teve na questão ambiental, que fica evidente na entrevista de pessoas engajadas na causa e até mesmo a percepção de idosos que habitam por lá. A parte da morte dos animais domésticos me deixou muito triste, em especial, a morte dos cães. Sim, eu fiquei triste por ser o meu animal predileto, mas também por eles terem ficado em frente das casas esperando o retorno de seus donos.

Eu, Anna, acredito que devemos pensar e falar mais sobre Tchernóbil. Mas não da maneira que falamos nos últimos tempos, até mesmo limitando a existência das pessoas de “pessoa de Tchernóbil” e com vises inconscientes discriminatórios (como muitos relataram no livro). Vamos pensar no modelo de sociedade que queremos para o futuro: seria esse modelo compatível com geração de energia nuclear? Como diminuir o nosso impacto ambiental e corrigir excessos? Fica os questionamentos!

Por fim, só gostaria de lembrar que o livro faz descrições tristes sobre deformidades e mortes de pessoas guerreiras que enfrentaram o inimigo invisível, também conhecido como radioatividade. Então, caso queira ler, lembre deste ponto.

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

Book Review: “Diário de um Homem Supérfluo” de Ivan Turguêniev

“Supérfluo, supérfluo… Encontrei uma palavra excelente. Quanto mais profundamente me perscruto, quanto mais atentamente examino a minha vida pregressa, mais me convenço da estrita exatidão desse termo. Supérfluo – é isso.

TURGUÊNIEV, Ivan. Diário de um homem supérfluo / tradução, posfácio e notas de Samuel Junqueira. São Paulo: Editora 34, 2019. p. 17

Essa obra é um clássico na história da literatura e teve um papel muito importante, em especial, na literatura russa. Caso queria comprar o livro, aqui está um link de compra: https://amzn.to/2Df411e

É a primeira vez em que temos contato com o psicológico do “homem supérfluo”, uma figura que já era presente na literatura russa, mas que ganhou uma maior complexidade na obra de Turguêniev.

O livro nos mostra um pouco o diário de Tchulkatúrin, um homem que está em seu leito de morte e que relembra o seu amor por Liza, filha de um proprietário de terras, bem como expressa a sua frustração com a vida. Há grande ênfase nesse amor por Liza, pois é o único acontecimento relevante que ocorre na vida de Tchulkatúrin, por mais frustante que essa experiência tenha sido (Liza o desprezava).

Essa frustração é uma característica marcante da figura do “homem supérfluo” da literatura russa. Mas, afinal, quem eram esses homens supérfluos? De acordo com Samuel Junqueira, eles são “jovens de origem nobre, dotados de grande capacidade intelectual e dos mais elevados princípios morais, mas também incapacitados para a ação, para a luta”.

É importante ressaltar que ocorreram grandes acontecimentos na primeira metade dos anos 1800 na Rússia, como omo a Revolta Dezembrista (1825) e a emancipação dos servos (1861). Os referidos eventos criaram um sentimento de união e busca por mudanças por parte da sociedade russa, em especial na juventude russa.

Todavia, por mais que os jovens estivessem com esse espírito revolucionário, eles não tinham como colocar seus ideais em ação, pois o regime do tzar Nicolau I tinha como característica a repressão e a censura. Logo, diante da impossibilidade de ação em um regime opressor e anacrônico, surge o Homem Supérlfuo.

Outro ponto interessante é que a obra de Turguêniev foi quase que inteiramente modificada pela censura em sua publicação. Apenas em 1856 que a obra é reestruturada com os trechos originais.

Na obra, Turguêniev cria tamanha profundidade para o personagem que acaba criando uma infância para ele. Logo, neste momento, surge a “criança supérflua” na literatura.

A leitura flui super bem e o narrador, apesar de sua situação trágica no leito de morte, se torna engraçado. Muitas vezes me pareceu bastante com “Memórias póstumas de Brás Cubas” do Machado de Assis. Eu recomendo bastante a leitura desse clássico e espero que esse apanhado histórico e análise literária de Samuel Junqueira enriqueça a leitura de todos!

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

Book Review: “O Alforje” de Bahiyyih Nakhjavani

“A luz das estrelas o socorreu. A pura beleza das dunas do deserto testemunhou a seu favor. Anjos de todas as denominações o apoiaram em silêncio”

NAKHJAVANI, Bahiyyih. O Alforje – Tradução de Rubens Figueiredo. 2ª Edição. Editora Dublinense. Porto Alegre, 2019.

“O Alforje” foi o meu primeiro contato com as obras de Nakhajavani e estou encantada. O enredo e a forma de escrita são incríveis e deixam a leitura fluida e interessante do começo ao fim. Caso queira comprar: https://amzn.to/3kynNFT

A escrita é doce e profunda. É um livro que trata sobre diferentes tipos de fé e personagens que se encontram e unem o destino por conta de um alforje (que eu considerei como mágico). Uma dificuldade que encontrei na leitura foi o choque cultural, pois não estava acostumada com os termos e a violência com que as mulheres são submetidas na obra.

Eu considerei como uma obra violenta, mas, ao mesmo tempo, envolvente e leve. A doçura e profundidade que Nakhajavani escreve é única e nos faz apaixonar.

A obra basicamente narra o assalto que há na caravana de uma noiva e o encontro com um corpo morto caído dos céus, todavia, na perspectiva de vários personagens que presenciam o evento. Então, há capítulos destinados à noiva, aos assaltantes, sacerdote, escrava, etc. Todos esses personagens se interligam não apenas por conta do acontecimento, mas também por conta de um misterioso alforje.

Cada personagem tem a sua própria bagagem cultural, um passado e uma religiosidade específica. Acho que esse ponto é o mais enriquecedor de toda a leitura. Achei também que o alforje era mágico e passava uma mensagem diferente para cada um que o pegava.

Mesmo tratando de um mesmo evento (e com pequenos flashbacks do passado de cada personagem) não achei repetitivo, mas super interessante. Indico fortemente para todos em busca de uma escrita linda (que “amacia a nossa mente” ) e uma cultura diferente.

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

Book Review: “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway

“He was too simple to wonder when he had attained humility. But he knew he had attained it and he knew it was not disgraceful and it carried no loss of true pride”.

HEMINGWAY, Ernest. Old Man and The Sea.

Esse é um dos meus livros prediletos da vida. Eu nunca chorei tanto ao terminar de ler um livro. Não chorei por tristeza, mas de emoção por acabar de ler uma obra tão linda. Caso queira comprar o livro, aqui está o link para compra: O velho e o mar

Durante a leitura fiquei com raiva do Santiago, mas também torci por ele. Foi um livro cheio de emoção. Rumores de que Hemingway enviou, junto com uma cópia original de “O velho e o mar”, um bilhete pro seu editor dizendo “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda” e isso fez muito sentido para mim, pois sei que são poucos os livros nesse nível que lerei na minha vida.¹.

A obra nos conta um pouco da história de Santiago, um pescador cubano idoso, que se encontra em uma maré de azar e ficou 84 dias sem conseguir um pescar um peixe (“Velho“). Ele sonhava com leões, que era uma memória feliz da sua infância e não mais com mulheres, brigas e peixes grandes (“He no longer dreamed of storms, nor women, nor of great occurrences, nor of great fish, nor fights, nor contests of strength, nor of his wife. He only dreamed of places now and of lions on the beach. They played like young cats in the dusk and he loved them as he loved the boy”).

Todavia, após a insistência do jovem amigo Manolin, o Velho resolve tentar pescar novamente na manhã no 85º dia com sua pequena canoa. Após muita luta e resistência física e mental, o Velho consegue pescar um peixe enorme (cinco metros e 700kg). Lembrando que a amizade entre o Velho e Manolin é linda e eu amei o jeito que Manolin cuida do seu amigo (“Keep the blanket around you” the boy said. “You’ll not fish without eating while I’m alive”).

Maior parte da história no mostra a luta do Velho contra o peixe, que o fez ir cada vez mais para o alto mar. No alto mar, O Velho sofre com o sol cegante e abre feridas no corpo, em especial nas mãos que acabam parecendo “garras”. Durante esse período, o Velho faz reflexões sobre a vida e a relação do homem com a natureza.

É interessante como sentimos a limitação física do Velho durante a pescaria e ainda como ele considera os peixes como “irmãos” e que ele não gosta de desrespeitar a natureza, mas que é o dever dele para com a comunidade dar esse alimento.

Agora vou dar spoiler: uma das partes mais angustiantes do livro é quando o Velho sofre ataques de tubarão após conseguir pescar o peixe grande. Ele sofre ao olhar pro peixe mutilado e acaba voltando para a sua comunidade apenas com os espinhos de um peixe enorme. Manolin chora muito ao encontrar seu amigo cansado e machucado, em especial na mão. Todos os pescadores seguem respeitando o Velho, em especial após a pesca desse peixe de tamanho descomunal.

Muitas pessoas acreditam que esse percurso do Velho é uma metáfora. “No plano existencial, O velho e o mar seria uma metáfora de uma vida de riscos, de investimentos que, no final, resultam em solidão ao lado de uma carcaça sem valor. Para o tradutor e doutor em linguística pela USP Caetano Galindo, trata-se de um texto no qual “cabe de fato um mar, um sem fim de possibilidades e sentimentos em torno de uma história simples, direta”. O próprio Hemingway, no entanto, negava essas interpretações alegóricas. “O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira”, escreveu em uma carta ao crítico Bernard Berenson”².

Muitos identificam muitos traços da vida de Hemingway no livro, que morou em Cuba e fazia pescas na região. De todo modo, é uma história emocionante e genial. Mais que recomendo para todos!

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

“Cobri o conflito na Líbia em Sirte, no front contra o Estado Islâmico. Fiz coberturas da guerra na Síria, no Iraque e no Afeganistão. Nunca tive guarda-costas. Estava em São Paulo, e precisava de segurança”

CAMPOS MELLO, Patrícia. A máquina do ódio. Editora Schwarcz. São Paulo, 2020.

Para quem não conhece, a Patrícia Campos Mello é uma jornalista brasileira colunista da Folha de S. Paulo e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, em especial por seu trabalho como jornalista correspondente em áreas de conflito como Síria e Serra Leoa.

Patrícia explora alguns pontos muito interessantes em “A máquina do ódio” como o linchamento que sofreu pelo Presidente da República e seus familiares, o impacto das mídias sociais nas eleições presidenciais, as novas formas de censura aos jornalistas, a ascensão de populistas no mundo e como o Presidente se utiliza de técnicas do Viktor Orbán, líder da Hungria. O livro termina com uma reflexão muito boa para o jornalismo: “será que uma pandemia pode salvar o jornalismo?”

Caso queira comprar o livro: A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital

Primeiramente, é interessante pensarmos que, de acordo com dados levantados no livro, 60% dos brasileiros usam o WhatsApp e muitos se informam pelo aplicativo. Tendo isso em vista, a nova versão de totalitarismo, a fim de alienar a população e criar uma ilusão de apoio ao líder totalitário, enche as redes sociais com a versão dos fatos que se quer emplacar. Tal técnica é muito forte, pois é (muitas vezes) o primeiro contato que o cidadão terá com a notícia e essa primeira impressão é muito difícil de ser desfeita.

Achei interessante o termo “tecnopopulista” para os líderes populistas que se utilizam das redes sociais de maneira abusiva, isto é, por meio do astroturfing. É igualmente curioso o fato das pessoas confiarem mais nas teorias conspiratórias do que em especialistas.

A jornalista também conta detalhes do caso dos disparos em massa de desinformação (vulgo “fake news” e que é uma atitude proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral desde 2019). Ela informa que existem empresas que vendem o cadastro com milhões de números de celular atrelados a CPFs, títulos de eleitor e o perfil social e econômico das pessoas (a maioria deles eram idosos). Nesse ponto, é extremamente necessário pensarmos como devemos cuidar de um dos nossos bens mais preciosos: nossos dados.

Ao denunciar o esquema descrito acima, Patrícia sofreu diversos ataques por fanáticos do Presidente. Ela evidencia o machismo que existe, pois ninguém criticaria um jornalista homem da mesma maneira que ela foi criticada e julgada. Um homem a difamou em uma CPMI por ele ter levado um belo pé na bunda (mulheres, quem mais já viu uma cena parecida?).

Nesse ponto, ela trata do linchamento virtual, que faz com que muitos jornalistas se silenciem com medo das violentas represálias.

Outro assunto é como o governo brasileiro é um governo da “pós-verdade”, que valoriza versões em detrimento de fatos. Essa parte me lembrou muito do livro “O povo contra a democracia” do Yascha Mounk, pois o lider populista antiliberal precisa ser a fonte da verdade absoluta para o seu povo. O jornalismo e a mídia tradicional atrapalha esse objetivo ao questionar as ações do líder populista. Assim como Maduro, o Presidente brasileiro toma decisões contra os jornalistas e mantém uma postura violenta frente à eles.

Por fim, ressalto que o jornalismo, assim como a advocacia, é uma profissão de países democráticos. O direito à informação é basilar do Estado Democrático de Direito e precisamos defendê-lo com unhas e dentes. Precisamos criar um senso crítico das ações feitas pelos líderes populistas para não cairmos em uma cilada como esse novo formato de totalitarismo.

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Essa foi a escolha para o mês de julho/2020 do leitura no Clube de Leitura @LivrosdeLei e foi um sucesso! A história é emocionante e nos conta um pouco da vida de Kambili, uma menina nigeriana que vive em um mundo com fanatismo religioso, autoridade parental e o colonialismo. Caso queira comprar o livro: Hibisco roxo

Esse foi o meu primeiro contato com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie e eu fiquei bastante impressionada com o quanto a leitura de um tema tão pesado se torna leve. O livro é super fluido e é possível acabar a leitura em poucos dias.

A Kambili é uma garota adolescente que vive com o seu pai (Papa), mãe (Mama) e irmão (Jaja). A família de Kambili é bastante rica e seu pai é um famoso líder local e dono de um jornal. A garota sofre bastante com o autoritarismo e o fanatismo religioso de seu pai, que acaba agredindo fisicamente tanto ela quanto o seu irmão e a sua mãe.

A história muda quando Kambili e Jaja vão passar uns dias na casa da tia Ifeoma, irmã do Papa. Ifeoma mora em uma cidade universitária e em uma situação de pobreza diferente da vida de luxo que Kambili e Jaja vivem com seus pais. Logo, Kambili aprende outras formas de viver e convive com seus primos e o seu avô Papa-Nnukwu.

Durante esse período na casa da tia Ifeoma, Kambili mantém mais contato com o seu avô (que é visto como um “pagão” por seu pai) e com outros personagens, como o Padre Amadi – o padre de uma Igreja próxima a casa de Ifeoma. O Padre Amadi se preocupa com Kambili e a ajuda a “se soltar”, pois a menina tinha um comportamento estranho devido aos traumas que Papa introduziu em sua criação.

Eu espero ter feito você ficar com vontade de ler até aqui! Porque não quero me estender e acabar contando o fim da história, que é brilhante. O fim é totalmente inesperado e nos mostra uma nova faceta dos personagens. Ou melhor, “os humilhados sendo exaltados”. Indico esse livro para todo mundo!

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Esses dois contos são incríveis e são os meus prediletos de Nikolai Gógol. Espero que vocês gostem e eu li os dois contos em um livro só, no caso esse: O Capote

O Nikolai Gógol retrata super bem o período do czar Nicolau I e a sociedade de São Petersburgo. Outro ponto interessante e uma figura muito comum das suas obras é o burocrata, que trabalha como oficial em altos cargos e passam por situações “humilhantes” ou que faz com que ele fique ofendido com ela. Tais situações conversam com o absurdo e trazem eventos trágicos e cômicos para a vida dos personagens.

“O Capote” (1842) nos conta a história de Akáki Akákievitch, um burocrata de cargo baixo. Ele vive na miséria juntando dinheiro em toda oportunidade que existe, mas passa por um sufoco quando o seu capote rasga. O capote sai caro, mas fica perfeito e chama a atenção de todo mundo. Akáki Akákievitch, que antes não tinha amigos, começa a ser popular por conta de sua roupa nova e é convidado para uma festa pelo chefe do departamento. Mas não esperava ele que ocorreria nessa festa uma fatalidade que faria a sua vida mudar para sempre.

Um ponto interessante é que o personagem sequer conseguia terminar uma frase direito e isso é refletido no próprio nome do personagem, que possui elementos de gagueira. “Ao analisar o conto, Paulo Bezerra destaca a importância do nome de Akáki para a caracterização da essência do personagem. O tradutor explica que sua repetição sonora “se constitui num exercício de gagueira (…) que usa uma linguagem quase desprovida de articulação, como se o homem ainda não tivesse criado uma linguagem estruturada”. Acrescenta-se a isso o seu sobrenome Bachmátchkin, derivado de báchmak, que significa sapato, e temos a imagem de um ofendido feito para ser pisado”¹.

O próprio Dostoiévski reconhece que “todos nós saímos do capote de Gógol”, considerando que a obra ultrapassa gerações e moldou uma onda de escritores russos.

Já o conto “O Retrato” (1835) nos conta um pouco da vida (e sonhos) de um pintor iniciante chamado Tchartkov, que adquire um retrato que o leva à loucura. Tchartkov vive com diversas dívidas e pouco reconhecimento até que encontrou dinheiro em sua casa, coincidentemente perto do quadro de um homem oriental, cujos olhos pareciam olhar fixamente para Tchartkov.

O dinheiro aparecia o tempo inteiro perto do quadro e, logo menos, Tchartkov sai da pobreza e passa a ser um pintor rico e famoso na sociedade. Mas ele percebe que é tudo artificial e que ninguém liga para o seu talento, o que o leva à loucura e inveja de outros pintores melhores. Na segunda parte do livro, descobrimos que o quadro é a pintura de um agiota, que realmente existiu, e que tinha um ar sombrio e amaldiçoava a todos que usavam o seu dinheiro emprestado.

Um fato interessante é que Nikolai Gógol morreu como Tchartkov, “mergulhado em profundos arrependimentos e diagnosticado pelos médicos como insano. Como revela Vladimir Nabokov em seu livro Nicolai Gógol: uma biografia”².
Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

“Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra -, nessa assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente das lembranças do passado”.

TOLSTÓI, Leon. “A Morte de Ivan Ilitch”. Página 66.

Esse livro foi o meu primeiro contato com a obra de Tolstói e fiquei apaixonada. “A Morte de Ivan Ilitch” foi publicado em 1886 e é considerado como uma das obras-primas da literatura. Se tiver interesse em comprar a obra: A morte de Ivan Ilitch

O livro trata muito da questão de viver a vida de acordo com valores dignos e não de “aparências” como Ilitch viveu. O modo de vida de Ilitch é uma crítica à superficialidade e hipocrisia da alta sociedade. Essa parte me lembrou bastante a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. “A história de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis” (página 12).

Importante dizer que o livro foi escrito após a conversão religiosa de Tolstói, que recebeu uma carta escrita à lápis de Tugueniev. Tugueniev, que estava sem forças para empunhar uma pena em seu leito de morte, escreve “por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo”. Logo após o recebimento da carta de seu amigo, Tolstói escreve “A Morte de Ivan Ilitch”, uma pequena novela e que reflete sobre a finitude humana.

O livro começa com a narração do velório de Ivan Ilitch, um juiz do Tribunal de Justiça bastante ambicioso e que morrera de uma doença no apêndice ou rim. No começo da história, nos é apresentado Piotr Ivanovich, que foi um colega de Ivan Ilitch na faculdade de Direito e no Tribunal. Ivanovich é considerado como o amigo mais próximo de Ilitch, mas não sente vontade alguma de ir até o velório. Não obstante, além de não ter vontade de ir ao velório ainda fica chateado por ter perdido a chance de jogar cartas com os colegas.

Ninguém realmente ligava para a morte de Ilitch, pois todos os convidados no velório estavam mais preocupados com quem assumirá o seu cargo no Tribunal de Justiça do que com o próprio morto.

O fato de Ivan Ilitch ter sido um burocrata a vida inteira ilustra bem a ideia de uma vida “automatizada” e sem grandes propósitos, estando estagnado naquele ambiente: “Essa arte de separar tão bem a vida oficial da vida real Ivan Ilitch possuía no mais alto grau e a prática associada ao talento natural tinha-o feito desenvolver esse talento a tal ponto de perfeição que muitas vezes, como os virtuoses, ele até se permitia, por um breve momento, mesclar suas relações humanas com as oficiais” (Página 27).

Ao decorrer da leitura, conhecemos Ivan Ilitch e toda a sua trajetória de vida. Após um acidente que faz com que ele machuque na região do rim, Ivan Ilitch acredita ter contraído uma doença no rim ou apêndice. Conforme o tempo passa, o seu ferimento se torna pior. O seu único prazer se tornou a companhia do filho, de apenas 14 anos, e de um criado seu, por entender que estes jamais lhe mentiriam.

É possível sentir a angústia e toda a mágoa que Ivan Ilitch sente no seu leito de morte. A parte que mais me chamou a atenção foi como “dói” ver a vida dos outros seguindo em frente enquanto a dele estava em seu fim. “Essa falsidade em volta e até mesmo dentro dele, mais do que qualquer outra coisa, envenenou os últimos dias de Ivan Ilitch” (Página 53).

Esse livro é incrível e faz reflexões bastante profundas sobre a brevidade e sentido da vida humana.

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

“Yet it was in the world of smell that Flush mostly lived. Love was chiefly smell; form and colour were smell; music and architecture, law, politics and science were smell. To him religion itself was smell. To describe his simplest experience with the daily chop or biscuit is beyond our power”

Flush – Virginia Woolf
Esse livro estava na minha lista de leituras há muito tempo, mas um post da @apseudocrítica me incentivou a finalmente começar a ler. Eu o achei bastante diferente, mas que ainda foi possível sentir o toque suave e complexo da escrita de Woolf.

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A obra foi baseada nos estudos que Woolf fez sobre a trajetória de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), uma poeta inglesa do período vitoriano. Woolf acreditava que Browning deveria ter tido um impacto maior na vida dos leitores do que de fato teve. Não obstante, a vida de Browning, aparentemente, “ofuscou” suas obras, pois ela era uma mulher “polêmica para a sua época”, por ser abolicionista e auxiliar nas alterações das leis trabalhistas para crianças.

De todo modo, no começo da década de 1930, a vida de Browning (e, consequentemente, de seu cachorro Flush) estavam na mente de Virginia Woolf. A partir deste ponto, Woolf cria uma história em uma perspectiva bastante diferente: ela conta parte da história da vida de Browning (como escritora) sob o olhar de seu cachorro Flush.

Em várias partes do livro podemos notar as dificuldades que Browning tinha para escrever, assim como Woolf já havia retratado na obra “Um Teto Todo Seu”, mas o livro abarca questões bem mais complexas e contemporâneas da sua época de escrita.

O livro mostra de maneira muito clara o contexto sociopolítico do começo do século XIX, em especial na ascensão do fascismo e nazismo na Europa e a enorme desigualdade social entre ricos e pobres. De acordo com Anna Snaith, “em Flush, Woolf explora a política de rebaixamento e hierarquia ligando sistemas de valor ao longo das linhas literárias (ortodoxa e genérica), de classe, de gênero, de espécies e de raça”.

A leitura do livro é bastante leve e divertida. Flush é um personagem que analisa todos os acontecimentos, mas que não foge do nível de complexidade/individualidade que envolve os pensamentos do cão, muitas vezes mostrando um comportamento “descompensado” para os humanos, mas natural e instintivo para os animais.

Muitas vezes acabei interpretando o Flush como um senhor inglês bastante tradicional, mas acredito que este traço da personalidade dele é parte da crítica social de Woolf. Achei interessante como ela tenta nos mostrar uma desigualdade até em relação aos cães: “But the dogs of London, Flush soon discovered, are stricly divided into different classes. Some are chained dogs; some run wild. Some take their airings in carriages and drink from purple jars; others are unkempt and uncollared and pick up a living in the gutter”. Outro ponto interessante (e que realmente entendemos a crítica social) ocorre quando Flush é roubado, pois há uma descrição muito clara do bairro pobre e os contrastes com o que Flush estava acostumado.

Ainda, o livro nos mostra a viagem que Browning faz com Flush para a Itália (onde a questão do fascismo fica mais forte ainda) e o envelhecimento dos dois. E, por fim, acompanhamos o nascimento do bebê de Browning e o livro termina na morte tranquila de Flush.

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“Adia suspirou e se virou para olhar em frente, na direção de Nairóbi. Queria ser como a zebra, levar sua casa com ela, onde quer que fosse, nos próprios poros da pele”.

BENSON, Adrienne. “O Sol mais Brilhante” / Adrienne Benson; tradução Elisa Nazarian – 1 ed. – Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020. Página 292.

Hoje preparei uma resenha um pouco diferente para vocês. Como eu já havia dito na página do Instagram (@livrosdelei), o livro “O Sol mais Brilhante” da Adrienne Benson trata sobre dois assuntos muito pertinentes e que impactam diretamente a vida das mulheres: maternidade e meio ambiente.

Aqui falaremos em uma visão geral da obra, sem caracterizar todos os personagens. Caso busque uma visão geral, acesse: https://www.instagram.com/livrosdelei

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  1. Maternidade

A questão da maternidade é muito clara durante o livro todo, pois experimentamos “o que é ser mãe” na perspectiva de quatro mulheres: Jane, Simi, Ruthie e Leona. Todas fazem o seu melhor para serem “as melhores mães” que conseguem, mas são impedidas por diversos fatores. Acredito que essa seja uma perspectiva mais real do que é ser mãe.

Jane é vista como uma boa mãe, mas assombrada pela possibilidade de sua filha ter o diagnóstico de esquizofrenia aguda, assim como o seu irmão teve. Ruthie é mãe de John, pai biológico de Aida, e que enfrenta um grande trauma após a morte de um dos seus filhos, além de sofrer com a doença de Alzheimer.

Simi é uma mulher massai que não consegue ter filhos biológicos, mas tem como maior sonho ser mãe e “adota” Aida, filha biológica de Leona com John. A mãe de Simi, uma figura importante e que molda a personagem, foi uma mulher visionária e que sempre lutou pela educação de sua filha. Infelizmente, devido ao marido violento e que gastava o dinheiro com bebida, ela não conseguiu manter Simi nos estudos. A saída de Simi da escola é parte essencial da pessoa que ela se torna na comunidade quando adulta.

Leona é uma mulher com muitos traumas e problemas sociais devido ao abuso infantil que enfrentou na infância. Tais abusos eram cometidos por seu pai e conhecidos pela sua mãe, o que deixa Leona ainda mais angustiada. O interessante é que conhecemos mais uma perspectiva de maternidade: a própria mãe de Leona se reconhece como uma “mãe ruim” e diz que é reflexo de sua mãe (avó de Leona). Logo, um fluxo de mães/pais ruins que se perpetuou na família.

Assim, como podemos ver, existem vários tipos de maternidade e que são bastante diferentes entre si. Cada tipo com suas inseguranças e realidades próprias. Acredito que essa perspectiva é importante para refletirmos sobre a romantização da maternidade, imposta pela sociedade na vida das mulheres.

2. Meio Ambiente

A questão do meio ambiente foi apresentada de maneira mais sutil, mas impacta a realidade das personagens de maneira econômica e social, em especial na percepção do que é “casa”.

O impacto econômico é muito evidente, pois ele afeta diretamente os Massai e a própria fazenda de Ruthie. De acordo com o próprio livro, sobre a fazenda de Ruthie: “tiveram dois anos de chuvas normais, e depois diversas estações secas como ossos. Estavam condenados desde o começo naquela fazenda; o tempo nunca votou a se estabelecer nos padrões dos quais eles dependiam” (p. 136).

Ainda, é possível ter uma visão geral do que estava ocorrendo no país naquele momento: “as coisas ainda estavam muito ruins, a terra continuava seca e os animais continuavam famintos, mas não havia mais para onde irem, as terras férteis se encolhiam e as terras secas cresciam” (p. 307) e “a seca tinha se estendido por muito tempo, as pessoas diziam. Agora, estava entranhada no Quênia. A população estava faminta. Os animais estavam morrendo. Os shambas, os cultivos familiares dos quais as pessoas dependiam, não passavam de pedras e poeira e, quando a chuva realmente veio, caiu rápido e com força demais para ser absorvida pelo solo nu. Não havia plantas que se agarrassem à água, que a ajudassem a se infiltrar na terra; assim, ela escorreu para longe, sem deixar nada além de rocha vulcânica e calcário, o baixo-ventre da terra, que não podia cultivar nada substancioso” (p. 207).

Outro ponto interessante é a relação que as pessoas possuem com os animais. É muito claro que as hienas são um grande perigo para as pessoas tanto em fazendas quanto em vilarejos originários. Há um medo frequente de crianças serem comidas pelas hienas, fazendo com que as mães até sonhem com o som das risadas do animal.

Todavia, em contraste, os Massai, como povo nômade, sabem exatamente como lidar com grandes felinos e outros animais. Eles e os animais vivem em harmonia na sua comunidade. Tanto que Aida, ao se deparar com um felino grande nos Estados Unidos, sabe exatamente como agir e analisar o animal.

Precisamos notar também a relação que a população tem com o consumo de carne, como é evidenciado na perspectiva de Jane: “a morte no Quênia – na verdade, em toda a África – é comum. Após anos no continente, Jane sabia disso. O gado é levado até o açougueiro e, sem preâmbulos, bem na calçada em frente ao açougue, o pescoço do animal é cortado e a carcaça é pendurada de cabeça para baixo, para que o sangue escorra. Fazer compras em feiras significa caminhar em um chão escorregadio de sangue, por corredores e corredores de cabeças decepadas e corpos sem cabeça, enfileirados em mesas, com moscas lambendo, laconicamente, os olhos vazios e vidrados dos animais mortos” (p. 267).

A natureza também está diretamente ligada com os sentimentos das personagens. Jane faz uma comparação mental linda entre o seu desenvolvimento pessoal e a jardinagem: “levava tempo, ela sabia, para arrancar todas as pragas e preparar o solo. A jardinagem era um processo; era preciso dar um passo de cada vez. Como na gravidez, pensou ou no luto. Poderia levar muito tempo, mas ela faria o jardim florescer” (p. 282).

E Aida faz observações interessantes sobre as diferenças entre o meio ambiente queniano e o estadunidense: “no seu país, a luz envolvia você como uma folha de palmeira. Mantinha-a próxima, mas era dócil. Você podia passar por ela, puxá-la à sua volta e considerá-la um aconchego. Aquela luz nova, aquela luz americana, não olhava para as pessoas que iluminava. Não se movia como a luz queniana, que sempre mudava e se alterava como algo vivo” (p. 295).

Para concluir as percepções ambientais, acho importante destacar a religiosidade. No caso de Simi, ela fez oferendas à uma árvore antiga e bastante popular em sua região. Ela acredita que existe uma relação entre seus deuses e a natureza de maneira bastante direta.

Esse livro é super interessante e indico para todos que buscam uma história maternal e bastante emocionante. Não é um livro que te deixará alegre ou fará rir, mas é uma leitura necessária para entender uma cultura diferente e questões como maternidade.