Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

Book Review: “A Máquina do Ódio” de Patrícia Campos Mello

“Cobri o conflito na Líbia em Sirte, no front contra o Estado Islâmico. Fiz coberturas da guerra na Síria, no Iraque e no Afeganistão. Nunca tive guarda-costas. Estava em São Paulo, e precisava de segurança”

CAMPOS MELLO, Patrícia. A máquina do ódio. Editora Schwarcz. São Paulo, 2020.

Para quem não conhece, a Patrícia Campos Mello é uma jornalista brasileira colunista da Folha de S. Paulo e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, em especial por seu trabalho como jornalista correspondente em áreas de conflito como Síria e Serra Leoa.

Patrícia explora alguns pontos muito interessantes em “A máquina do ódio” como o linchamento que sofreu pelo Presidente da República e seus familiares, o impacto das mídias sociais nas eleições presidenciais, as novas formas de censura aos jornalistas, a ascensão de populistas no mundo e como o Presidente se utiliza de técnicas do Viktor Orbán, líder da Hungria. O livro termina com uma reflexão muito boa para o jornalismo: “será que uma pandemia pode salvar o jornalismo?”

Caso queira comprar o livro: A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital

Primeiramente, é interessante pensarmos que, de acordo com dados levantados no livro, 60% dos brasileiros usam o WhatsApp e muitos se informam pelo aplicativo. Tendo isso em vista, a nova versão de totalitarismo, a fim de alienar a população e criar uma ilusão de apoio ao líder totalitário, enche as redes sociais com a versão dos fatos que se quer emplacar. Tal técnica é muito forte, pois é (muitas vezes) o primeiro contato que o cidadão terá com a notícia e essa primeira impressão é muito difícil de ser desfeita.

Achei interessante o termo “tecnopopulista” para os líderes populistas que se utilizam das redes sociais de maneira abusiva, isto é, por meio do astroturfing. É igualmente curioso o fato das pessoas confiarem mais nas teorias conspiratórias do que em especialistas.

A jornalista também conta detalhes do caso dos disparos em massa de desinformação (vulgo “fake news” e que é uma atitude proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral desde 2019). Ela informa que existem empresas que vendem o cadastro com milhões de números de celular atrelados a CPFs, títulos de eleitor e o perfil social e econômico das pessoas (a maioria deles eram idosos). Nesse ponto, é extremamente necessário pensarmos como devemos cuidar de um dos nossos bens mais preciosos: nossos dados.

Ao denunciar o esquema descrito acima, Patrícia sofreu diversos ataques por fanáticos do Presidente. Ela evidencia o machismo que existe, pois ninguém criticaria um jornalista homem da mesma maneira que ela foi criticada e julgada. Um homem a difamou em uma CPMI por ele ter levado um belo pé na bunda (mulheres, quem mais já viu uma cena parecida?).

Nesse ponto, ela trata do linchamento virtual, que faz com que muitos jornalistas se silenciem com medo das violentas represálias.

Outro assunto é como o governo brasileiro é um governo da “pós-verdade”, que valoriza versões em detrimento de fatos. Essa parte me lembrou muito do livro “O povo contra a democracia” do Yascha Mounk, pois o lider populista antiliberal precisa ser a fonte da verdade absoluta para o seu povo. O jornalismo e a mídia tradicional atrapalha esse objetivo ao questionar as ações do líder populista. Assim como Maduro, o Presidente brasileiro toma decisões contra os jornalistas e mantém uma postura violenta frente à eles.

Por fim, ressalto que o jornalismo, assim como a advocacia, é uma profissão de países democráticos. O direito à informação é basilar do Estado Democrático de Direito e precisamos defendê-lo com unhas e dentes. Precisamos criar um senso crítico das ações feitas pelos líderes populistas para não cairmos em uma cilada como esse novo formato de totalitarismo.

Book Review: “Ecofeminismos” de Daniela Rosendo

Book Review: “Ecofeminismos” de Daniela Rosendo

Acompanho o movimento feminista há anos e nunca havia ouvido falar sobre o termo “ecofeminismo”. O meu primeiro contato se deu por meio de um Podcast no Spotify chamado “Ecofeminismo: Mulheres e Natureza”, que apareceu como “indicado para mim” na plataforma. Comecei a estudar o assunto e achei bastante interessante. Ressalto que existem algumas percepções nas quais eu discordo, mas acho importante dividir um pouco do conhecimento sobre esse movimento e o quanto ele é interessante e pertinente.

Comprei o livro “Ecofeminismos” de Daniela Rosendo a fim de aprofundar os meus estudos sobre o tema. O livro é curtinho e conta com artigos científicos que tratam sobre o tema (em português e espanhol) e suas várias abordagens. Caso tenha interesse na compra da obra: Ecofeminismos: fundamentos teóricos e práxis interseccionais

O ecofeminismo é um movimento mais filosófico com uma pegada um pouco diferente do que estamos habituados a encontrar em outras camadas dos feminismos. Essa filosofia prega a empatia e cuidado por todos os seres individuais para que o mundo seja, como um todo, um local mais ético.

O foco é que todos os processos de opressão criado pelo homem tem uma base em comum e que há semelhanças diretas entre o sistema de dominação patriarcal e o que cometemos com a natureza. De acordo com o livro: “A teoria feminista se torna um importante instrumento de análise e bandeira de luta social, porque nos ajuda a entender o modus operandi de como as opressões estão interligadas”.

Existem algumas reflexões muito interessantes sobre o tema. Começarei explorando a ideia da conexão que a mulher possui com a natureza, que é bastante diferente daquela ensinada aos homens.

O machismo cria uma ideia de desvalorização de tudo relacionado ao feminino e à natureza (os chamados “outros”). Mas como isso ocorre? o machismo impacta a criação dos homens e faz com que eles pensem que tanto a natureza quanto as mulheres estão ao seu dispor ou precisam ser conquistados por ele. O homem ocupa um espaço de conquista e dominação por meio desse tipo de criação que envolve a ideia de masculinidade. Logo, é preciso que os meninos sejam criados para exercitar o seu sentimento de empatia pelo “outro”.

Um exemplo interessante que aparece no livro é o seguinte: “A caça e o sacrifício animal exemplificam o corte da conexão com as mulheres e os animais. Através da história, a caça tem sido tanto uma atividade predominantemente masculina quanto um ritual prototípico para entrar na idade viril”.

Não obstante, no decorrer da história, as mulheres foram retratadas em uma relação direta com a natureza, como na ideia de que existe um Deus homem situado no céu governando a Terra, que é imaginada como feminina. O livro “Ecofeminismos” deixa claro essa ideia na seguinte passagem: “mulheres e animais são vistos como selvagens, irracionais, seres do mal que precisam ser conquistados e subjugados por uma força masculina agressiva”.

Ainda nesse sentido da relação entre mulheres/natureza e a posição de dominação masculina, o livro nos mostra também como as mulheres estavam ligadas à uma imagem de ciclos repetitivos da natureza (em especial, por conta da possibilidade de reprodução) enquanto aos homens cabia uma imagem ligada a atos de heroísmos.

Vale ressaltar que a ligação que a mulher tem com a natureza não deve ser reforçada pelo esterótipo retratado acima, que justifica tal ligação como uma “natureza” própria do feminino. Há uma parte do livro que explica muito bem esse ponto: “Qualquer atribuição de características inatas aos sexos carece de fundamentos científicos, mas, sobretudo, por entendermos que tal visão reforça padrões de subordinação dominantes e inibem o potencial crítico do feminismo”.

Outro ponto importante (e mais prático) a ser observado é de que as mulheres são a população mais afetada pelas mudanças climáticas. Isso ocorre pelo fato de que a mudança climática faz com que os homens migrem para locais cada vez mais distantes em busca de subsistência, enquanto as mulheres permanecem nos vilarejos em situação precária. Além de pesquisas indicarem que há um aumento na violência de gênero, tráfico humano e casamento infantil nessas localidades mais afetadas.

O livro trata desse aspecto também na seguinte passagem: “Certamento o lixo tóxico, a poluição do ar, os lençóis freáticos contaminados, o aumento da militarização e similares não são exclusivamente questões de mulheres; elas são questões humanas que afetam todo mundo. Porém, ecofeministas alegam que essas questões ambientais são questões feministas porque são as mulheres e as crianças as primeiras a sofrer as consequências da desigualdade e da destruição ambiental e que sofrem essas consequências desproporcionalmente em relação aos homens adultos”.

Por fim, um último ponto interessante retratado no livro é como as mulheres sofrem com a falta de reconhecimento na luta ambiental e agrária.

Sendo assim, consigo concluir que o ecofeminismo ele não nasce com uma abordagem prática como os outros feminismos, mas como um movimento intelectual e filosófico, pois leva em consideração questões como sistemas de opressão e condição humana.

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Book Review: “Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie

Essa foi a escolha para o mês de julho/2020 do leitura no Clube de Leitura @LivrosdeLei e foi um sucesso! A história é emocionante e nos conta um pouco da vida de Kambili, uma menina nigeriana que vive em um mundo com fanatismo religioso, autoridade parental e o colonialismo. Caso queira comprar o livro: Hibisco roxo

Esse foi o meu primeiro contato com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie e eu fiquei bastante impressionada com o quanto a leitura de um tema tão pesado se torna leve. O livro é super fluido e é possível acabar a leitura em poucos dias.

A Kambili é uma garota adolescente que vive com o seu pai (Papa), mãe (Mama) e irmão (Jaja). A família de Kambili é bastante rica e seu pai é um famoso líder local e dono de um jornal. A garota sofre bastante com o autoritarismo e o fanatismo religioso de seu pai, que acaba agredindo fisicamente tanto ela quanto o seu irmão e a sua mãe.

A história muda quando Kambili e Jaja vão passar uns dias na casa da tia Ifeoma, irmã do Papa. Ifeoma mora em uma cidade universitária e em uma situação de pobreza diferente da vida de luxo que Kambili e Jaja vivem com seus pais. Logo, Kambili aprende outras formas de viver e convive com seus primos e o seu avô Papa-Nnukwu.

Durante esse período na casa da tia Ifeoma, Kambili mantém mais contato com o seu avô (que é visto como um “pagão” por seu pai) e com outros personagens, como o Padre Amadi – o padre de uma Igreja próxima a casa de Ifeoma. O Padre Amadi se preocupa com Kambili e a ajuda a “se soltar”, pois a menina tinha um comportamento estranho devido aos traumas que Papa introduziu em sua criação.

Eu espero ter feito você ficar com vontade de ler até aqui! Porque não quero me estender e acabar contando o fim da história, que é brilhante. O fim é totalmente inesperado e nos mostra uma nova faceta dos personagens. Ou melhor, “os humilhados sendo exaltados”. Indico esse livro para todo mundo!

Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

Book Review: “O Nariz” de Nikolai Gogol

“Convenhamos, a fantasia não conhece leis, e além do mais efetivamente ocorrem no mundo muitos acontecimentos perfeitamente inexplicáveis”

GOGOL, Nikolai Vassiliévitch, 1809-1952. O nariz /e/ Diário de um louco; Tradução Roberto Gomes – Porto Alegre: LP&M, 2011.

O livro “O Nariz” de Nikolai Gogol é um clássico da literatura russa super curtinho e dá para ler facilmente em 1 dia.

Para mim, a melhor parte de todos os contos de Gogol é a mistura entre a vida comum e o absurdo, e essa história é minha predileta dele justamente por conta desse elemento. A obra nos conta a história do Major Kovaliov, um sujeito que acorda sem o seu nariz. Caso queira comprar o livro: O nariz: 201

A situação, em si, já é bastante bizarra. Mas piora bastante quando vemos a naturalidade que as outras pessoas tratam esse assunto. Ninguém entende como se fosse algo mágico, mas que “poderia acontecer”. O conto é dividido em duas partes.

Na primeira parte do conto, acompanhamos o barbeiro Ivan Iákovlevitch que encontra um nariz no meio do pão que comia pela manhã. O personagem fica com medo de ser preso pelas autoridades e resolve esconder o nariz. Nesse momento, pensei que ele era um assassino ou algo do tipo.

A segunda parte trata do momento em que o Major Kovaliov descobre que está sem o seu nariz. Desesperado, ele recorre ao comandante da polícia e até à seção de anúncios de um jornal. No fim, a polícia aparece em sua casa com o nariz, e o desafio passa a ser como colocá-lo de volta no rosto de Kovaliov.

Essa história é bastante divertida e ótima para conhecer as obras de Gogol. Indico para todos que estejam abertos para o diferente e que buscam uma leitura divertida.

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Book Review: “O Capote” e “O Retrato” de Nikolai Gógol

Esses dois contos são incríveis e são os meus prediletos de Nikolai Gógol. Espero que vocês gostem e eu li os dois contos em um livro só, no caso esse: O Capote

O Nikolai Gógol retrata super bem o período do czar Nicolau I e a sociedade de São Petersburgo. Outro ponto interessante e uma figura muito comum das suas obras é o burocrata, que trabalha como oficial em altos cargos e passam por situações “humilhantes” ou que faz com que ele fique ofendido com ela. Tais situações conversam com o absurdo e trazem eventos trágicos e cômicos para a vida dos personagens.

“O Capote” (1842) nos conta a história de Akáki Akákievitch, um burocrata de cargo baixo. Ele vive na miséria juntando dinheiro em toda oportunidade que existe, mas passa por um sufoco quando o seu capote rasga. O capote sai caro, mas fica perfeito e chama a atenção de todo mundo. Akáki Akákievitch, que antes não tinha amigos, começa a ser popular por conta de sua roupa nova e é convidado para uma festa pelo chefe do departamento. Mas não esperava ele que ocorreria nessa festa uma fatalidade que faria a sua vida mudar para sempre.

Um ponto interessante é que o personagem sequer conseguia terminar uma frase direito e isso é refletido no próprio nome do personagem, que possui elementos de gagueira. “Ao analisar o conto, Paulo Bezerra destaca a importância do nome de Akáki para a caracterização da essência do personagem. O tradutor explica que sua repetição sonora “se constitui num exercício de gagueira (…) que usa uma linguagem quase desprovida de articulação, como se o homem ainda não tivesse criado uma linguagem estruturada”. Acrescenta-se a isso o seu sobrenome Bachmátchkin, derivado de báchmak, que significa sapato, e temos a imagem de um ofendido feito para ser pisado”¹.

O próprio Dostoiévski reconhece que “todos nós saímos do capote de Gógol”, considerando que a obra ultrapassa gerações e moldou uma onda de escritores russos.

Já o conto “O Retrato” (1835) nos conta um pouco da vida (e sonhos) de um pintor iniciante chamado Tchartkov, que adquire um retrato que o leva à loucura. Tchartkov vive com diversas dívidas e pouco reconhecimento até que encontrou dinheiro em sua casa, coincidentemente perto do quadro de um homem oriental, cujos olhos pareciam olhar fixamente para Tchartkov.

O dinheiro aparecia o tempo inteiro perto do quadro e, logo menos, Tchartkov sai da pobreza e passa a ser um pintor rico e famoso na sociedade. Mas ele percebe que é tudo artificial e que ninguém liga para o seu talento, o que o leva à loucura e inveja de outros pintores melhores. Na segunda parte do livro, descobrimos que o quadro é a pintura de um agiota, que realmente existiu, e que tinha um ar sombrio e amaldiçoava a todos que usavam o seu dinheiro emprestado.

Um fato interessante é que Nikolai Gógol morreu como Tchartkov, “mergulhado em profundos arrependimentos e diagnosticado pelos médicos como insano. Como revela Vladimir Nabokov em seu livro Nicolai Gógol: uma biografia”².
Book Review: “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

Book Review: “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

“Quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico”.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 1977.

Quero começar a resenha com a própria descrição de Clarice sobre a obra: “a estória de uma moça, tão pobre que só comia cachorro quente. Mas a estória não é isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima”.

A obra é narrada pelo escritor Rodrigo S. M. que resolve escrever sobre uma mulher nordestina chamada Macabéa. Ele escreve a história de Macabéa ao mesmo tempo que nos conta, uma característica bastante peculiar de Clarice Lispector. Rodrigo despreza a protagonista de sua história e se utiliza da ironia em diversos momentos. Ele sabe de tudo e está em todos os momento da vida de Macabéa, bem como cria o destino da mulher, que muitas vezes acabamos duvidando da sua existência. Caso queira comprar o livro: A Hora da Estrela

Já Macabéa é uma mulher alagoana que vai morar no Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Todavia, ela encontra diversas dificuldades e um mundo que não foi feito para ela, fazendo com que ela não se conheça, mas apenas sobreviva na cidade.

Macabéa trabalhava como datilógrafa, mas escrevia mal. A sua única distração e fonte de informações é o seu rádio-relógio, que fala de curiosidades do mundo da história e da ciência.

A vida da personagem fica emocionante quando ela começa a namorar Olímpico de Jesus, um rapaz ambicioso e que não vê grandes perspectivas no namoro com Macabéa. Assim que Olímpico conhece Glória (única amiga de Macabéa), ele resolve ficar com ela, pois vê uma chance de ascensão social.

Em um certo ponto da narrativa, Macabéa começa a sentir dores e vai ao médico. Nessa consulta ao médico, ela descobre que está com tuberculose, mas não conta para ninguém. Glória percebe que a amiga está bastante triste e indica uma cartomante.

Macabéa vai até a cartomante (chamada de Madame Carlota) e é informada de que irá ser feliz ao conhecer um estrangeiro (um rapaz loiro chamado Hans) e se casar com ele. Mal esperava Macabéa que encontraria esse estrangeiro logo ao sair da cartomante, mas que não se casaria com ele: ela acaba sendo atropelada por uma Mercedes amarela (dirigida pelo estrangeiro) e morre.

O título “A hora da estrela” simboliza a morte de Macabéa, uma mulher que sente a vida apenas no momento de sua morte.

É um livro com uma narrativa brilhante e que levanta diversas questões filosóficas e sociais. Vale a leitura dessa obra-prima da literatura brasileira.

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

Book Review: “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstói

“Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra -, nessa assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente das lembranças do passado”.

TOLSTÓI, Leon. “A Morte de Ivan Ilitch”. Página 66.

Esse livro foi o meu primeiro contato com a obra de Tolstói e fiquei apaixonada. “A Morte de Ivan Ilitch” foi publicado em 1886 e é considerado como uma das obras-primas da literatura. Se tiver interesse em comprar a obra: A morte de Ivan Ilitch

O livro trata muito da questão de viver a vida de acordo com valores dignos e não de “aparências” como Ilitch viveu. O modo de vida de Ilitch é uma crítica à superficialidade e hipocrisia da alta sociedade. Essa parte me lembrou bastante a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. “A história de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis” (página 12).

Importante dizer que o livro foi escrito após a conversão religiosa de Tolstói, que recebeu uma carta escrita à lápis de Tugueniev. Tugueniev, que estava sem forças para empunhar uma pena em seu leito de morte, escreve “por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo”. Logo após o recebimento da carta de seu amigo, Tolstói escreve “A Morte de Ivan Ilitch”, uma pequena novela e que reflete sobre a finitude humana.

O livro começa com a narração do velório de Ivan Ilitch, um juiz do Tribunal de Justiça bastante ambicioso e que morrera de uma doença no apêndice ou rim. No começo da história, nos é apresentado Piotr Ivanovich, que foi um colega de Ivan Ilitch na faculdade de Direito e no Tribunal. Ivanovich é considerado como o amigo mais próximo de Ilitch, mas não sente vontade alguma de ir até o velório. Não obstante, além de não ter vontade de ir ao velório ainda fica chateado por ter perdido a chance de jogar cartas com os colegas.

Ninguém realmente ligava para a morte de Ilitch, pois todos os convidados no velório estavam mais preocupados com quem assumirá o seu cargo no Tribunal de Justiça do que com o próprio morto.

O fato de Ivan Ilitch ter sido um burocrata a vida inteira ilustra bem a ideia de uma vida “automatizada” e sem grandes propósitos, estando estagnado naquele ambiente: “Essa arte de separar tão bem a vida oficial da vida real Ivan Ilitch possuía no mais alto grau e a prática associada ao talento natural tinha-o feito desenvolver esse talento a tal ponto de perfeição que muitas vezes, como os virtuoses, ele até se permitia, por um breve momento, mesclar suas relações humanas com as oficiais” (Página 27).

Ao decorrer da leitura, conhecemos Ivan Ilitch e toda a sua trajetória de vida. Após um acidente que faz com que ele machuque na região do rim, Ivan Ilitch acredita ter contraído uma doença no rim ou apêndice. Conforme o tempo passa, o seu ferimento se torna pior. O seu único prazer se tornou a companhia do filho, de apenas 14 anos, e de um criado seu, por entender que estes jamais lhe mentiriam.

É possível sentir a angústia e toda a mágoa que Ivan Ilitch sente no seu leito de morte. A parte que mais me chamou a atenção foi como “dói” ver a vida dos outros seguindo em frente enquanto a dele estava em seu fim. “Essa falsidade em volta e até mesmo dentro dele, mais do que qualquer outra coisa, envenenou os últimos dias de Ivan Ilitch” (Página 53).

Esse livro é incrível e faz reflexões bastante profundas sobre a brevidade e sentido da vida humana.

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

Book Review: “Flush” de Virgínia Woolf

“Yet it was in the world of smell that Flush mostly lived. Love was chiefly smell; form and colour were smell; music and architecture, law, politics and science were smell. To him religion itself was smell. To describe his simplest experience with the daily chop or biscuit is beyond our power”

Flush – Virginia Woolf
Esse livro estava na minha lista de leituras há muito tempo, mas um post da @apseudocrítica me incentivou a finalmente começar a ler. Eu o achei bastante diferente, mas que ainda foi possível sentir o toque suave e complexo da escrita de Woolf.

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A obra foi baseada nos estudos que Woolf fez sobre a trajetória de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), uma poeta inglesa do período vitoriano. Woolf acreditava que Browning deveria ter tido um impacto maior na vida dos leitores do que de fato teve. Não obstante, a vida de Browning, aparentemente, “ofuscou” suas obras, pois ela era uma mulher “polêmica para a sua época”, por ser abolicionista e auxiliar nas alterações das leis trabalhistas para crianças.

De todo modo, no começo da década de 1930, a vida de Browning (e, consequentemente, de seu cachorro Flush) estavam na mente de Virginia Woolf. A partir deste ponto, Woolf cria uma história em uma perspectiva bastante diferente: ela conta parte da história da vida de Browning (como escritora) sob o olhar de seu cachorro Flush.

Em várias partes do livro podemos notar as dificuldades que Browning tinha para escrever, assim como Woolf já havia retratado na obra “Um Teto Todo Seu”, mas o livro abarca questões bem mais complexas e contemporâneas da sua época de escrita.

O livro mostra de maneira muito clara o contexto sociopolítico do começo do século XIX, em especial na ascensão do fascismo e nazismo na Europa e a enorme desigualdade social entre ricos e pobres. De acordo com Anna Snaith, “em Flush, Woolf explora a política de rebaixamento e hierarquia ligando sistemas de valor ao longo das linhas literárias (ortodoxa e genérica), de classe, de gênero, de espécies e de raça”.

A leitura do livro é bastante leve e divertida. Flush é um personagem que analisa todos os acontecimentos, mas que não foge do nível de complexidade/individualidade que envolve os pensamentos do cão, muitas vezes mostrando um comportamento “descompensado” para os humanos, mas natural e instintivo para os animais.

Muitas vezes acabei interpretando o Flush como um senhor inglês bastante tradicional, mas acredito que este traço da personalidade dele é parte da crítica social de Woolf. Achei interessante como ela tenta nos mostrar uma desigualdade até em relação aos cães: “But the dogs of London, Flush soon discovered, are stricly divided into different classes. Some are chained dogs; some run wild. Some take their airings in carriages and drink from purple jars; others are unkempt and uncollared and pick up a living in the gutter”. Outro ponto interessante (e que realmente entendemos a crítica social) ocorre quando Flush é roubado, pois há uma descrição muito clara do bairro pobre e os contrastes com o que Flush estava acostumado.

Ainda, o livro nos mostra a viagem que Browning faz com Flush para a Itália (onde a questão do fascismo fica mais forte ainda) e o envelhecimento dos dois. E, por fim, acompanhamos o nascimento do bebê de Browning e o livro termina na morte tranquila de Flush.

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“O Sol mais Brilhante”, Maternidade e Meio Ambiente

“Adia suspirou e se virou para olhar em frente, na direção de Nairóbi. Queria ser como a zebra, levar sua casa com ela, onde quer que fosse, nos próprios poros da pele”.

BENSON, Adrienne. “O Sol mais Brilhante” / Adrienne Benson; tradução Elisa Nazarian – 1 ed. – Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020. Página 292.

Hoje preparei uma resenha um pouco diferente para vocês. Como eu já havia dito na página do Instagram (@livrosdelei), o livro “O Sol mais Brilhante” da Adrienne Benson trata sobre dois assuntos muito pertinentes e que impactam diretamente a vida das mulheres: maternidade e meio ambiente.

Aqui falaremos em uma visão geral da obra, sem caracterizar todos os personagens. Caso busque uma visão geral, acesse: https://www.instagram.com/livrosdelei

Caso queira comprar a obra, acesse o link para compra: O Sol Mais Brilhante

  1. Maternidade

A questão da maternidade é muito clara durante o livro todo, pois experimentamos “o que é ser mãe” na perspectiva de quatro mulheres: Jane, Simi, Ruthie e Leona. Todas fazem o seu melhor para serem “as melhores mães” que conseguem, mas são impedidas por diversos fatores. Acredito que essa seja uma perspectiva mais real do que é ser mãe.

Jane é vista como uma boa mãe, mas assombrada pela possibilidade de sua filha ter o diagnóstico de esquizofrenia aguda, assim como o seu irmão teve. Ruthie é mãe de John, pai biológico de Aida, e que enfrenta um grande trauma após a morte de um dos seus filhos, além de sofrer com a doença de Alzheimer.

Simi é uma mulher massai que não consegue ter filhos biológicos, mas tem como maior sonho ser mãe e “adota” Aida, filha biológica de Leona com John. A mãe de Simi, uma figura importante e que molda a personagem, foi uma mulher visionária e que sempre lutou pela educação de sua filha. Infelizmente, devido ao marido violento e que gastava o dinheiro com bebida, ela não conseguiu manter Simi nos estudos. A saída de Simi da escola é parte essencial da pessoa que ela se torna na comunidade quando adulta.

Leona é uma mulher com muitos traumas e problemas sociais devido ao abuso infantil que enfrentou na infância. Tais abusos eram cometidos por seu pai e conhecidos pela sua mãe, o que deixa Leona ainda mais angustiada. O interessante é que conhecemos mais uma perspectiva de maternidade: a própria mãe de Leona se reconhece como uma “mãe ruim” e diz que é reflexo de sua mãe (avó de Leona). Logo, um fluxo de mães/pais ruins que se perpetuou na família.

Assim, como podemos ver, existem vários tipos de maternidade e que são bastante diferentes entre si. Cada tipo com suas inseguranças e realidades próprias. Acredito que essa perspectiva é importante para refletirmos sobre a romantização da maternidade, imposta pela sociedade na vida das mulheres.

2. Meio Ambiente

A questão do meio ambiente foi apresentada de maneira mais sutil, mas impacta a realidade das personagens de maneira econômica e social, em especial na percepção do que é “casa”.

O impacto econômico é muito evidente, pois ele afeta diretamente os Massai e a própria fazenda de Ruthie. De acordo com o próprio livro, sobre a fazenda de Ruthie: “tiveram dois anos de chuvas normais, e depois diversas estações secas como ossos. Estavam condenados desde o começo naquela fazenda; o tempo nunca votou a se estabelecer nos padrões dos quais eles dependiam” (p. 136).

Ainda, é possível ter uma visão geral do que estava ocorrendo no país naquele momento: “as coisas ainda estavam muito ruins, a terra continuava seca e os animais continuavam famintos, mas não havia mais para onde irem, as terras férteis se encolhiam e as terras secas cresciam” (p. 307) e “a seca tinha se estendido por muito tempo, as pessoas diziam. Agora, estava entranhada no Quênia. A população estava faminta. Os animais estavam morrendo. Os shambas, os cultivos familiares dos quais as pessoas dependiam, não passavam de pedras e poeira e, quando a chuva realmente veio, caiu rápido e com força demais para ser absorvida pelo solo nu. Não havia plantas que se agarrassem à água, que a ajudassem a se infiltrar na terra; assim, ela escorreu para longe, sem deixar nada além de rocha vulcânica e calcário, o baixo-ventre da terra, que não podia cultivar nada substancioso” (p. 207).

Outro ponto interessante é a relação que as pessoas possuem com os animais. É muito claro que as hienas são um grande perigo para as pessoas tanto em fazendas quanto em vilarejos originários. Há um medo frequente de crianças serem comidas pelas hienas, fazendo com que as mães até sonhem com o som das risadas do animal.

Todavia, em contraste, os Massai, como povo nômade, sabem exatamente como lidar com grandes felinos e outros animais. Eles e os animais vivem em harmonia na sua comunidade. Tanto que Aida, ao se deparar com um felino grande nos Estados Unidos, sabe exatamente como agir e analisar o animal.

Precisamos notar também a relação que a população tem com o consumo de carne, como é evidenciado na perspectiva de Jane: “a morte no Quênia – na verdade, em toda a África – é comum. Após anos no continente, Jane sabia disso. O gado é levado até o açougueiro e, sem preâmbulos, bem na calçada em frente ao açougue, o pescoço do animal é cortado e a carcaça é pendurada de cabeça para baixo, para que o sangue escorra. Fazer compras em feiras significa caminhar em um chão escorregadio de sangue, por corredores e corredores de cabeças decepadas e corpos sem cabeça, enfileirados em mesas, com moscas lambendo, laconicamente, os olhos vazios e vidrados dos animais mortos” (p. 267).

A natureza também está diretamente ligada com os sentimentos das personagens. Jane faz uma comparação mental linda entre o seu desenvolvimento pessoal e a jardinagem: “levava tempo, ela sabia, para arrancar todas as pragas e preparar o solo. A jardinagem era um processo; era preciso dar um passo de cada vez. Como na gravidez, pensou ou no luto. Poderia levar muito tempo, mas ela faria o jardim florescer” (p. 282).

E Aida faz observações interessantes sobre as diferenças entre o meio ambiente queniano e o estadunidense: “no seu país, a luz envolvia você como uma folha de palmeira. Mantinha-a próxima, mas era dócil. Você podia passar por ela, puxá-la à sua volta e considerá-la um aconchego. Aquela luz nova, aquela luz americana, não olhava para as pessoas que iluminava. Não se movia como a luz queniana, que sempre mudava e se alterava como algo vivo” (p. 295).

Para concluir as percepções ambientais, acho importante destacar a religiosidade. No caso de Simi, ela fez oferendas à uma árvore antiga e bastante popular em sua região. Ela acredita que existe uma relação entre seus deuses e a natureza de maneira bastante direta.

Esse livro é super interessante e indico para todos que buscam uma história maternal e bastante emocionante. Não é um livro que te deixará alegre ou fará rir, mas é uma leitura necessária para entender uma cultura diferente e questões como maternidade.

Book Review: “Justiça” – Michael J. Sandel

Book Review: “Justiça” – Michael J. Sandel

Caso tenha interesse em comprar a obra, acesse o link de compra: Justiça: O que é fazer a coisa certa

“Justiça” de Michael J. Sandel é um livro completamente diferente do que vocês estão acostumados a ler por aqui. Ele é um livro que tem como objetivo nos fazer refletir sobre diversas situações complexas e verificar o nosso próprio senso de justiça.

O livro possui mais de 150 mil exemplares vendido no Brasil e é resultado de um curso da Universidade de Harvard, cuja faculdade de Direito é a melhor de todo o mundo. Eu li esse livro há muitos anos atrás e agora reli para o Clube de Leitura da Gabriela Prioli.

Todas as perspectivas de justiça analisadas pelo livro são de cunho filosófico e são muito bem explicadas pelo autor. É um livro que nos faz refletir diversas questões e que aborda pontos polêmicos da nossa sociedade, como ações afirmativas, mercado e liberdade pessoal (casamentos homoafetivos, aborto, venda de órgãos e barriga de aluguel).

Para mim, a parte mais enriquecedora foi a explicação filosófica de cada autor citado. O autor explica questões complexas de maneira didática e fluida. Dentre essas questões estão o Imperativo Categórico de Kant e toda a teoria da equidade de John Rawls. Foi ótimo poder revisitar essas teorias, que apenas tive contato no começo da graduação em Direito.

Acho que essa é uma leitura obrigatória para quem busca se entender melhor como cidadão e a sua própria posição na sociedade. Toda comunidade muda com o tempo e esse livro é um ótimo caminho para entender algumas dessas mudanças sob uma perspectiva da ética e da justiça. O autor é franco e transparente ao nos encaminhar por vários caminhos até chegar ao seu raciocínio.